É estarrecedor assistir, em pleno século XXI, à expansão do obscurantismo promovido por movimentos fundamentalistas religiosos e organizações jihadistas, cuja visão de mundo representa uma negação brutal das liberdades, da dignidade humana e dos valores civilizatórios.
No Afeganistão, sob o domínio do Talibã, mulheres são proibidas de estudar, frequentar universidades, trabalhar em inúmeras atividades e participar da vida pública. No Irã, a teocracia impõe às mulheres um regime de opressão e perseguição em nome de uma interpretação autoritária da religião. Na Arábia Saudita, no Iêmen, na Somália e em outras regiões, persistem, em diferentes graus e sob diferentes regimes, práticas de discriminação, repressão e violência contra as mulheres. Organizações como o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e o Boko Haram representam expressões extremas dessa barbárie fundamentalista.
Não estamos diante de diferenças culturais que devam ser respeitadas em nome do pluralismo. Estamos diante da negação de direitos humanos universais, da liberdade individual e da própria condição da mulher como cidadã, sujeito de direitos e dona de seu destino.
Mas há algo igualmente assustador nessa realidade: a reação de parcelas expressivas do mundo ocidental, particularmente de setores da juventude e de movimentos que historicamente se apresentaram como libertários, progressistas de esquerda e defensores das grandes utopias emancipatórias.
Como compreender que movimentos que estiveram nas ruas contra todas as formas de opressão, que fizeram da liberdade, da igualdade e fraternidade entre homens e mulheres e da emancipação humana suas bandeiras históricas, hoje se mostrem tolerantes, omissos ou até solidários com organizações e regimes que negam radicalmente esses mesmos princípios?
Como explicar que, em nome de uma leitura distorcida do anticolonialismo, do anti-imperialismo ou da oposição ao Ocidente, se relativizem a misoginia, o fanatismo religioso, a perseguição às mulheres e a supressão das liberdades? Como admitir que a condição de vítima de uma potência ocidental transforme qualquer movimento que a combata, independentemente de sua natureza e de seus propósitos, em aliado ou referência política?
É uma inversão moral e política inaceitável!
A solidariedade aos povos não pode ser confundida com solidariedade a seus opressores. A defesa dos direitos dos palestinos, dos iranianos, dos afegãos ou de qualquer outro povo não exige, nem admite, cumplicidade com fundamentalistas que negam a liberdade e a dignidade de seus próprios cidadãos. Pelo contrário: exige solidariedade às mulheres, aos jovens, aos democratas e a todos aqueles que enfrentam a opressão.
E é indispensável afirmar, com a mesma clareza, que o terrorismo precisa ser combatido em todas as suas manifestações, sem seletividade ideológica ou conveniências geopolíticas. Não há causa política, religiosa ou nacional que justifique atentados contra civis, assassinatos, sequestros e a disseminação do terror como instrumento de ação política. O terrorismo não pode ser relativizado, muito menos legitimado, conforme a identidade de quem o pratica ou o alvo de suas ações. A cooperação internacional para preveni-lo e combatê-lo, responsabilizar seus autores e enfrentar suas redes de sustentação é uma exigência da defesa da democracia e da segurança das sociedades livres.
Esse combate, entretanto, não pode servir de pretexto para autoritarismos, violações de direitos humanos ou discriminações religiosas. A defesa da democracia deve preservar os próprios valores que pretende proteger.
A esquerda democrática, o pensamento liberal e todos os movimentos verdadeiramente comprometidos com a emancipação humana precisam reencontrar a coragem de afirmar seus princípios sem ambiguidades e sem conveniências geopolíticas.
Não há emancipação onde se impõe a submissão religiosa. Não há justiça social onde metade da população é privada de direitos. Não há liberdade onde a fé é transformada em instrumento de Estado e de dominação. E não há progressismo em apoiar, tolerar ou silenciar diante de regimes e organizações que representam o retrocesso mais profundo da civilização.
O fundamentalismo obscurantista precisa ser enfrentado, não acomodado; o terrorismo, combatido, não relativizado; e a opressão, denunciada, jamais celebrada como expressão de alguma suposta resistência libertária.
É preciso recuperar o sentido universal das lutas libertárias. A liberdade das mulheres afegãs e iranianas, assim como a de todas as mulheres submetidas à opressão fundamentalista, não é uma causa ocidental, oriental, de direita ou de esquerda.
É uma causa da humanidade.
Roberto Freire
Presidente de Honra da Federação PSDB/CIDADANIA












