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Masculinidade em desequilíbrio: quando o vínculo vira disputa e a vida real começa a cobrar o preço – por Bruna Gayoso

As relações vêm passando por mudanças importantes nos últimos anos, e isso já é sentido no cotidiano. A desconfiança aumentou, a dificuldade de construir vínculos ficou mais evidente e o confronto, muitas vezes, aparece antes mesmo de qualquer tentativa de diálogo.

Não é algo restrito às redes sociais.

Isso aparece na forma como as pessoas se aproximam, conversam e se relacionam.

Conversas que rapidamente se tornam conflitos.

Relações que começam já com desconfiança.

Pessoas mais preocupadas em se proteger do que em se abrir.

Nesse cenário, chama atenção o crescimento de movimentos como o Redpill.

A origem do termo remete ao filme The Matrix, em que “tomar a pílula vermelha” simboliza enxergar a realidade. Mas, nas redes sociais, esse conceito foi sendo distorcido e passou a sustentar uma forma específica de enxergar as relações entre homens e mulheres.

Nessa lógica, o relacionamento deixa de ser um espaço de construção e passa a ser visto como disputa.

Surgem classificações como “alpha”, “beta” e “betinha”, que reduzem pessoas a rótulos simplificados. Esses termos são usados para desqualificar, ironizar e afastar quem pensa diferente, tornando o diálogo cada vez mais difícil.

Quando um discurso se organiza a partir de “um contra o outro”, ele não aproxima, ele divide, gera ofensas.

E isso se agrava quando essas ideias passam a ser reforçadas por pessoas que ocupam lugares de influência, como líderes religiosos, militares e influenciadores. Homens que, muitas vezes, deveriam orientar, trazer equilíbrio e consciência, acabam reproduzindo falas carregadas de ataque, desconfiança e generalização.

A resposta vem do outro lado.

Mulheres também passam a reagir.

Se defendem mais.

Se fecham mais.

Em alguns casos, também atacam.

E, aos poucos, o que poderia ser conversa vira confronto.

O que se instala não é diálogo.

É um ciclo.

Pessoas feridas reagindo a partir do que não foi elaborado.

Do ponto de vista da saúde mental, isso revela algo importante. Existe uma dificuldade crescente de lidar com frustração, rejeição e vulnerabilidade.

Quando alguém não consegue sustentar o que sente, tende a colocar isso no outro.

O ataque, nesse contexto, deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser uma forma de defesa.

Por isso, a necessidade constante de desqualificar o outro não fala de força.

Fala de fragilidade emocional.

E isso não fica restrito ao ambiente virtual.

Esse funcionamento aparece nas relações do dia a dia.

Homens que têm dificuldade de confiar e interpretam muitas situações com suspeita.

Mulheres que permanecem em alerta, muitas vezes reagindo a partir de experiências anteriores que não foram bem elaboradas.

É importante reconhecer que o desequilíbrio não está apenas em um lado.

Assim como existe uma masculinidade em desequilíbrio, também existe um feminino em desequilíbrio.

Quando ambos operam a partir da defesa, o vínculo se fragiliza.

A relação deixa de ser um espaço seguro e passa a ser um lugar de tensão.

E viver nesse estado constante de alerta tem um custo.

A ansiedade aumenta.

A insegurança se torna frequente.

A confiança diminui.

Os vínculos se tornam mais frágeis.

Em situações mais intensas, esse desequilíbrio pode contribuir para relações destrutivas, conflitos recorrentes e atitudes impulsivas, com consequências que poderiam ser evitadas com mais consciência emocional.

Diante disso, fica claro que esse não é um tema superficial.

A forma como estamos nos relacionando está mudando e isso impacta diretamente a saúde mental das pessoas.

Hoje, vemos o fortalecimento de extremos.

De um lado, discursos ligados ao Redpill que defendem papéis rígidos e limitam o lugar da mulher.

De outro, distorções dentro do Feminismo que, em alguns contextos, também acabam reforçando posturas mais reativas.

E é importante ter clareza e inteligência emocional

Cada pessoa tem o direito de viver como acredita ser melhor.

De fazer suas escolhas.

De conduzir a própria vida.

Mas isso não inclui atacar, desumanizar ou transformar diferenças em conflito constante. Porque isso não resolve.

Apenas aprofunda o problema.

Relações saudáveis não se constroem a partir de disputa.

Masculinidade saudável não precisa se afirmar atacando.

O feminino equilibrado não precisa viver em constante defesa.

Ambos exigem algo em comum: maturidade emocional.

Capacidade de lidar com frustração.

De reconhecer limites.

De sustentar o contato com o diferente sem transformar isso em ameaça.

Sem isso, o que se mantém é repetição.

Padrões que se reforçam.

Conflitos que se repetem.

Distâncias que aumentam.

E, quando isso se amplia, deixa de ser apenas individual.

Passa a ser social.

Ainda é possível mudar esse cenário.

Mas isso exige responsabilidade.

Exige olhar para si.

Reconhecer a própria dor.

Interromper o ciclo de ataque e defesa.

Queremos continuar sustentando posições ou estamos dispostos a construir relações?

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