Desde que o ser humano começou a tentar compreender a si mesmo, também busca compreender o amor. Em diferentes épocas, culturas e formas de organização social, homens e mulheres procuraram vínculos afetivos capazes de oferecer pertencimento, acolhimento e sentido existencial. No entanto, embora o desejo de amar seja universal, construir relações emocionalmente saudáveis continua sendo um dos maiores desafios humanos.
Em grande parte das relações adoecidas, o amor deixa de ser encontro e passa a ser tentativa de controle, validação ou salvação. Há quem ame com medo de perder, quem permaneça por medo da solidão e quem transforme o outro em responsável pela própria felicidade. Nesse contexto, qualquer frustração passa a ser interpretada como abandono, e qualquer diferença como ameaça. O relacionamento deixa de ser espaço de construção para se tornar campo de cobranças silenciosas.
O psicanalista Jacques Lacan descreve o amor como o encontro entre dois desejos, não entre duas perfeições. Isso desmonta uma das maiores ilusões contemporâneas: a ideia de que relacionamentos saudáveis são aqueles sem conflitos, sem diferenças ou sem frustrações. Relações maduras não são construídas por pessoas perfeitas, mas por pessoas conscientes das próprias fragilidades e responsáveis pelas próprias emoções. A busca por relações sadias exige algo cada vez mais raro: maturidade emocional. Isso significa compreender que amar não é possuir, controlar ou exigir completude. É reconhecer o outro como sujeito, alguém que possui desejos, limites, dores e individualidade. Relações saudáveis não anulam identidades, elas criam espaço para crescimento mútuo.
Também é necessário abandonar a romantização do sofrimento. Muitas pessoas confundem intensidade com amor e acabam normalizando ciúme excessivo, manipulação emocional, dependência e instabilidade constante. O amor saudável não vive da tensão permanente. Ele produz segurança emocional, diálogo, respeito e possibilidade de construção.
Talvez o grande desafio dos relacionamentos humanos seja justamente este: aprender que o amor não vem para preencher inteiramente nossas ausências, mas para caminhar ao lado delas. Porque vínculos verdadeiros não acontecem quando duas pessoas tentam se completar desesperadamente. Eles acontecem quando dois indivíduos emocionalmente conscientes escolhem, todos os dias, estender as mãos um ao outro, sem deixar de sustentar a própria existência.
Suely Buriasco
Mediadora e Escritora











