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Uma retórica política leviana para justificar dívida pública – por Artur Marques

Artur Marques* 
 

A cada nova divulgação dos números da dívida pública, volta à cena o velho e descuidado enredo de transformar o funcionalismo público no vilão preferencial das contas nacionais. O discurso ganha tom leviano ao simplificar o tema com uma retórica dissuasiva. Se a dívida cresce, corta-se servidor. Se o déficit preocupa, congela-se salário. Se o caixa aperta, aponta-se o dedo para quem está na ponta do serviço. Porém, a história mostra que essa narrativa é equivocada.
 

Os números mais recentes ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. O estoque da dívida pública federal encerrou 2025 em torno de R$ 8,6 trilhões, maior valor da série histórica. Mantido o ritmo atual de financiamento, pode aproximar-se de R$ 10 trilhões já ao fim de 2026. Em proporção ao PIB, a dívida bruta gira hoje em torno de 79% e segue em trajetória ascendente.
 

O País direciona algo próximo de R$ 1 trilhão por ano apenas para o pagamento de juros, cifra que concorre diretamente com investimentos, políticas públicas e a manutenção de serviços essenciais. Projeções indicam que, sem mudanças relevantes na condução fiscal e na dinâmica de financiamento, a dívida pode ultrapassar 110% do PIB no início da próxima década, com estimativas que apontam algo próximo de 117% em 2033.
 

O atalho retórico para justificar esses números, sempre crescentes ao longo deste século, cumpre um papel político indisfarçável, ao apontar um culpado fácil e difuso – o servidor –, capaz de concentrar indignações e desviar o foco das verdadeiras engrenagens que pressionam o endividamento público. Ao fazer isso, adia-se o enfrentamento das causas estruturais e se perpetua uma discussão rasa, que pouco contribui para soluções eficazes.
 

Os próprios dados deixam claro que o peso do serviço da dívida, fortemente impactado por juros reais entre os mais elevados do mundo, continua sendo um componente central da dinâmica fiscal. Taxas exageradas significam crescimento acelerado do estoque da dívida, independentemente da folha de pagamento. Cada ponto percentual na Selic representa bilhões adicionais a serem pagos anualmente. Não é o professor da rede pública quem define esse índice. Não é o enfermeiro do hospital estadual quem delibera sobre política monetária nem a professora de uma longínqua escola rural que faz a estratégia de gastos do Estado.
 

Servidores públicos não elaboram a lei orçamentária, não fixam prioridades macroeconômicas, não criam despesas supérfluas, não administram grandes contratos nem definem renúncias fiscais, que tiram R$ 400 bilhões por ano do erário. Essas são atribuições de governantes eleitos e de gestores investidos de poder decisório. Atribuir ao conjunto do funcionalismo a responsabilidade pelo endividamento é inverter a lógica institucional do Estado brasileiro.
 

Há, evidentemente, desafios fiscais relevantes. O crescimento das despesas obrigatórias exige planejamento, reformas estruturais e debate qualificado. Entretanto, transformar o funcionalismo em bode expiatório produz apenas um ruído político que custa caro, pois se cria na opinião pública a percepção equivocada de que escolas, hospitais, tribunais, agências de fiscalização, previdência e assistência social seriam estruturas inchadas por privilégios generalizados, quando, na prática, são operadas por brasileiros que sustentam cotidianamente o funcionamento do Estado.
 

O discurso simplista também ignora que a dívida pública resulta de múltiplos fatores acumulados ao longo de décadas: ciclos econômicos, crises internacionais, políticas anticíclicas, subsídios, desonerações, decisões de investimento, falhas de governança e, sobretudo, a própria dinâmica dos juros compostos. Reduzir essa complexidade a uma narrativa inverídica sobre “excesso de servidores” e/ou salários é uma falácia histórica.
 

Trata-se de distorção grave porque desfoca o debate, alimenta antagonismos sociais desnecessários e empurra com a barriga a busca de soluções reais: revisão de prioridades, eficiência na alocação de recursos, avaliação de políticas públicas, transparência na gestão, controle de despesas financeiras e aprimoramento institucional.

As análises sobre a dívida pública precisam sair do campo do slogan. Isso implica reconhecer que ajuste fiscal não se faz com caricaturas, mas com diagnóstico correto, coragem política e compromisso com o presente e o futuro do País. Quando o foco desloca-se para um alvo fácil, perde-se tempo e mais dinheiro. Enquanto o debate gira em torno de “culpados” convenientes, a dívida continua crescendo, os juros seguem pressionando o orçamento e as soluções estruturais permanecem adiadas.
 

Essa discussão deve ingressar com urgência no terreno da responsabilidade técnica. O Brasil carece de mais maturidade para discutir suas contas, postura que passa, necessariamente, pelo abandono de mitos confortáveis para os gestores da União, dos estados e dos municípios. Servidores públicos não são a causa da imensa dívida, mas os profissionais que, apesar dela, mantêm o Estado em funcionamento.

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