Por que os candidatos à Presidência da República não apresentam planos de governo para enfrentar os problemas do país? Primeiro, porque ainda não são candidatos, são apenas pré-candidatos. Depois, quem realmente está interessado em ouvir promessas de palanque que, provavelmente, jamais serão cumpridas?
Embora as pessoas sejam afetadas pelo governo ou pelo desgoverno de quem será eleito, no fundo, se não a maioria, pelo menos boa parte prefere ver o circo pegar fogo. São impactadas mais por frases de efeito do que por listas de propostas que já sabem ser impraticáveis.
Opala velho
Todos esses anos de “democracia” deixaram os eleitores ressabiados. Acreditam em uma lorota aqui e se decepcionam logo adiante. Envolvem-se com discursos que prometem extirpar as mazelas da nação e se frustram ao descobrir que tudo não passava de canto de sereia. Foram anos seguidos de planos mirabolantes que não saíram da campanha.
Por isso, sem confessar abertamente, preferem o espetáculo das acusações recíprocas. Pelo menos se divertem. Reagem com entusiasmo quando Flávio Bolsonaro, por exemplo, diz que “Lula é um Opala velho, que não leva a lugar nenhum e bebe pra caramba”. Em uma única frase curta e simples, chamou o presidente de bêbado, velho e desgovernado.
O deboche
Uma frase assim dificilmente nasce de improviso. Provavelmente foi elaborada a partir de muita reflexão e debate entre seus apoiadores. É um “xingamento” que pode pegar e servir de munição nos debates, especialmente nas redes sociais. Por isso, exige resposta. Mas não a partir de reações intempestivas. O troco precisa ser à altura.
Lula revidou. E, pelo jeito, também deve ter preparado a forra depois de muita discussão. Afinal, precisava ter o mesmo efeito da agressão recebida. Por outro lado, não poderia se mostrar ofendido. Se alguém quiser que um apelido pegue, basta demonstrar ressentimento. O presidente tem a vantagem de ser craque nesse ringue. Sabe como ninguém desestabilizar adversários só na base do deboche.
Desmanche
Ele se defendeu atacando. O curioso é que não mencionou o nome de Flávio. Tática parecida com a de Jânio Quadros, que se referia a Fernando Henrique Cardoso como “Sr. Cardoso”. Como FHC ainda não era tão conhecido, muita gente se perguntava: se não conhecem Fernando Henrique, quem seria esse tal “Sr. Cardoso”?
Lula devolveu: “Outro dia, o filho do Bolsonaro disse assim: ‘O Lula é um Opala velho. Quando ele fala assim, eu não me ofendo porque eu tive um Opala 94 turbinado. Se ele conhecesse o meu Opala, ele não falava. Ele fala porque o Opala dele é o pai dele, que tá no desmanche”.
Alvo perigoso
“Desmanche” poderia ser um bom termo nesse tipo de embate. Como Flávio herdou o espólio político do pai, Bolsonaro estando fragilizado talvez transferisse essa imagem negativa também ao filho. Só que, nesse caso, Lula consegue agradar apenas seus correligionários. Esse ataque não ultrapassa a bolha.
Com Bolsonaro doente, hospitalizado, passando por procedimentos médicos sucessivos, é um tiro que pode sair pela culatra. As pessoas, até aquelas que não gostam muito do ex-presidente, ficam sensibilizadas com a situação. Não veem ali só o político, mas o ser humano que está sofrendo.
O dilema de 2018
Não foi diferente quando levou a facada. Os adversários deram uma trégua. Falar mal do candidato naquela circunstância seria demonstração de desumanidade. Passado um tempo, entretanto, como Bolsonaro continuava crescendo nas pesquisas, resolveram deixar os pruridos de lado e partiram para o confronto.
Deu no que deu. Como haviam previsto, as acusações se voltaram contra aqueles que não tiveram piedade do candidato vítima de um atentado. Era uma tentativa de reverter o quadro, pois não havia muito o que fazer naquela situação. O homem já estava com a faixa presidencial no peito.
Diversão garantida
Talvez Lula tivesse melhor resultado se atacasse Flávio diretamente, sem mexer com o pai. Como a política é surpreendente, até um deslize como esse, embora improvável, pode dar resultado. As próximas pesquisas poderão indicar as consequências dessa troca de farpas.
Outras virão. Os dois, provavelmente, vão errar. Uma campanha é feita de erros e acertos. Mas, se alguém espera por programas sérios de governo, poderá se desapontar. Pelo que os candidatos têm apresentado, o que menos teremos pela frente serão planos para governar o país. Para quem gosta de pancadaria, boa diversão. Siga pelo Instagram: @@reinaldo-polito












