Imagine uma família brasileira, dessas de cada esquina, que precisasse emprestar R$ 2,4 mil do banco com juros “normais” de mercado dois anos atrás. Uma emergência médica, a geladeira parou de funcionar, essas coisas. Você começa a negociar com o banco, que avisa, como se estivesse fazendo um favor, a cobrança de uma taxa de juros média de mercado: 8% ao mês.
A família, sem alternativas, topa. Mas aí a instituição bancária exige a reciprocidade. É mais ou menos assim: para eu esfoliar você financeiramente, você ainda tem que adquirir um seguro de vida (quer dizer, a família passa a pagar o risco do banco embutido no empréstimo), contra incêndio ou danos materiais decorrentes de improváveis colisões de aviões com seu prédio que fica fora da rota do aeroporto.
A família assina o contrato de empréstimo e não consegue efetuar nenhum pagamento. Com juros compostos nesse patamar, uma dívida de R$ 2,4 mil se transformou em R$ 15,2 mil em 24 meses. A maioria dos casais só descobre essa aritmética quando o casamento começa a ficar abalado.
É nesse ponto que entra o novo Desenrola Brasil, lançado pelo governo. Vamos supor que a família aceitou um desconto de 50% do programa e fica devendo “apenas” R$ 7,5 mil. Esse valor é refinanciado em 48 meses, com juros de até 1,99% ao mês. Ao final, cumprindo as obrigações religiosamente todo mês, terá pago R$ R$ 4,2 mil de juros ao banco. Ao longo dos seis anos da operação completa — dois de juros de mercado, quatro de refinanciamento —, o banco e o governo, via impostos, vão receber cerca de R$ 8,2 mil sobre um empréstimo original de R$ 2,4 mil. Quase quatro vezes o valor emprestado!!!
Os juros no Brasil são extorsivos. Nos Estados Unidos, um financiamento de R$ 2,4 mil em seis anos custará cerca de R$ 1 mil de juros. Em Portugal, os juros serão de R$ 700 e no Japão, cerca de R$ 200. E, muitas vezes, o financiamento dos pobres brasileiros no banco é feito para pagar uma dívida contraída em função de um empréstimo anterior do mesmo banco. Não tem o menor sentido.
O roteiro é mais ou menos assim: sujeito arruma uma briga na festa das crianças, quebra os maxilares de dois coleguinhas da classe do filho tentando atingir o pai “folgado” e dá uma voadora no garçom que não tinha legitimidade para tentar acalmar os ânimos. Depois de contido, o psicopata fala desse jeito, para os agredidos: “Não foi nada, desculpa aí. Vai nesse hospital aqui, procura fulano de tal e diz que é meu amigo. Qualquer coisa, fala para ele me ligar.”
O governo tem um custo operacional gigantesco para viabilizar o sistema fazendário — e esse custo é pago por toda a sociedade. Se a arrecadação sobre lucros bancários cair, ajusta-se a alíquota — como fez em 2025, elevando a CSLL dos bancos de 15% para 20%. Se a inadimplência subir e o crédito encolher, o governo lança um programa de renegociação, reativa o volume de operações e volta a arrecadar sobre os lucros gerados.
Já os bancos brasileiros auferem lucros galácticos. Seus ROEs (retornos sobre investimento líquido) superam a performance das maiores empresas do mundo. Chegam a 23%. Os grandes conglomerados financeiros americanos operam na faixa dos 16-18% – e olha que estamos falando dos Estados Unidos. Empresas gigantescas como a Exxon Mobil têm ROE de 14%, a Chevron 12% e a Toyota 12%.
A família que assinou aquele contrato por R$ 2,4 mil tomou uma decisão dentro da única opção que o sistema colocou à disposição. Esse roteiro, do qual o Desenrola 2 é um mero coadjuvante do núcleo malvado do enredo, escancara um monumental processo de transferência de renda da população mais pobre para os bancos e o Estado. Uma espécie de Bolsa Família ao contrário.
Há quem defenda que o problema são os brasileiros, que carecem de educação financeira e gastam onde não devem. “Prendam os suspeitos de sempre!”, vá lá. Mas “vamos investigar as vítimas”? Aí já é demais!












