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“Mulher honesta não tem ouvidos” – por Regina Helena de Paiva Ramos

Acontecia de tudo em minha casa de Juquehy. Coisas muito engraçadas.

Teve um final de semana que estava comigo o maravilhoso ator Laerte Morrone. No sábado, ele acordou irritado com o canto de uma senhora caiçara lavando roupa no riacho próximo, e que os caiçaras a chamavam de “fonte”.

Sabe-se lá por quê – nunca se sabia direito as razões do Laerte – resolveu fazer uma das suas interpretações: uma briga de marido e mulher.

“Cala a boca, acabo te dando uma porrada! Você tem que parar de fingir! Traidora, bandida”! – Ele gritava a plenos pulmões. – “Para de me trair!”

O canto à beira do rio cessou. Ele continuou: –“Sempre soube da sua traição, cobra venenosa!” – E gritava, andando pela casa. Era a própria briga familiar de baixíssimo nível.

Começamos a rir, todos, e ele rebateu – ”Ria, agora ria, depois de me ferir desse jeito”!

Foi um show de seus dez minutos, aquele vozeirão ecoando pela casa e arredores. Graças a Deus, na ocasião, só havia um vizinho, o português João Baleizão, a quem contamos, mais tarde, a brincadeira do Laerte.

No dia seguinte Baleizão encontrou na nossa rua a mulher que se dirigia ao riacho e cantava lavando roupa. Abordou-a:

– “Então, Dona Hilda, ouviu ontem uma briga horrível na casa da Dona Regina”?

Ao que ela respondeu, impávida e até sem parar a caminhada para o rio. – “Mulher honesta não tem ouvidos.”

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