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O clima e a saúde global – por Gilberto Natalini e Marcus Eduardo de Oliveira

Faz pelo menos meio século que as perturbações antrópicas (sempre perseguindo incansavelmente o desenvolvimento material) sobre o planeta que nos acolhe geram muito desequilíbrio ecológico; e provocam rupturas; e alteram o funcionamento dos ecossistemas naturais.

Dessa perspectiva, pesa reconhecer, nós, os modernos, temos mantido uma relação tão crítica com a biosfera que, seguindo William Ripple e colegas, “grande parte da estrutura da vida na Terra está em perigo”.

Seja como for, pela primeira vez na história, quando se evoca o aquecimento global, se quer anunciar, de fato, a ocorrência de um sintomático desequilíbrio com consequências irreversíveis. Ocorre que, combinado a isso, com a nossa Pegada Ecológica (Human Footprint) colocamos o mundo natural na rota do caos ambiental e caos climático. Gradativamente, vendo a questão assim, evidenciam-se os benefícios econômicos, mas ocultam-se os prejuízos ambientais, cada vez mais desfavoráveis à vida. No horizonte crítico, firma-se o padrão habitual, quer dizer, a lógica dominante que acelera os processos predatórios, sem se importar com os danos da interferência antrópica no meio ambiente. Ou mesmo se haverá ecocídio generalizado. Ou ainda se os ecossistemas serão fragmentados; ou, em última análise, a se o clima em transe nos trará para perto dos eventos extremos.

No enredo dessa crise atual – especialmente a ecológica e a do clima – o planeta, como um todo, tem sido levado ao colapso pelas forças dominantes que priorizam o lucro, por isso, em larga medida, estimulam o consumo de massa, e fazem uso inadequado dos limitados recursos do mundo natural.

Em meio a essas ocorrências, com o pendor de desestabilizar, cabe perguntar: como começou a crise mais perigosa desses tempos modernos que compromete a boa qualidade de vida das pessoas?

Como resposta, Rita Carelli escreve pontualmente aquilo que Ailton Krenak lhe disse em conversa reservada: “a crise ambiental que estamos enfrentando teve origem no dia em que começamos a dizer às crianças que a terra é suja”.

Tomando parte dessa narrativa e procurando ainda ampliar o horizonte da resposta, há, aqui, um fato inescapável: para cada novo impacto humano no Sistema Terrestre decorrente da expansão da produção material, pior para a regulação climática e as condições químicas para a reprodução do sistema vida.

Aliás, num cenário assim, distópico, em que as temperaturas globais estão cada vez mais quentes, tanto mais a sociedade humana, cedo ou tarde, se aproxima de novas e perigosas enfermidades. Portanto, de qualquer maneira, num cenário em que ainda (nós, sociedade civil) debatemos o conceito de desenvolvimento sustentável, o aquecimento da atmosfera bate seguidos recordes (a temperatura média global já é cerca de 1,37°C acima dos níveis pré-industriais).

Nesse enquadramento, podemos dizer abertamente que a crise climática, pela dimensão que alcança, jamais poderá ser resolvida dentro do sistema capitalista que se alimenta da crise e de crises. Tampouco a crise do clima. Essas crises, para reiterar o óbvio, agora sabemos, custam vidas. Donde mortes e colapso (do meio ambiente, do clima, da ecologia profunda) se intercalam.

Assim, vejamos mais um ponto importante: em relatório organizado em conjunto pela University College London e a Organização Mundial da Saúde, lê-se que “milhões de pessoas morrem todos os anos devido à inação diante do aquecimento global”.

Sem novidades, até o fim do século, em 2100, a segurança entre o planeta e as pessoas, aponta em relatório a ONU, tende a permanecer na berlinda, uma vez que o aquecimento global pode matar cerca de 40 milhões de pessoas.

Seja como for, diante do que já aconteceu, vale lembrar que, apenas entre 2012 e 2021, a média de óbitos no mundo relacionada às altas temperaturas globais foi de 546 mil por ano. Em todo o planeta, em apenas três décadas, quase 800 mil pessoas morreram em decorrência de eventos extremos. Conta simples de fazer, de acordo com o Índice de Risco Climático, da ONG Germanwatch, foram mais de 9.400 desastres climáticos impactando a saúde global. No Brasil, a cada ano, são registradas 6 mil mortes por doenças respiratórias relacionadas a temperaturas extremas, calor ou frio.

Assim sendo, vamos insistir: o agravamento das mudanças climáticas, a inaceitável erosão de biodiversidade, a destruição excessiva de vegetação nativa, o mau uso da terra, a pilhagem de recursos naturais e o alto gasto energético e, por último, mas não por fim, os insuportáveis níveis de poluição do ar, do solo (estima-se que 52% das terras agrícolas no mundo são afetadas pela poluição), das águas etc, deixam, como é fácil supor, o sistema vida estruturalmente incompatível diante do desajuste planetário.

Nesses termos, é bom dizer que a Terra está enfrentando abusos ecológico-ambientais porque está esquentando mais rápido do que era previsto (enfrentando assim o chamado estresse térmico).

Desde 1850, o mundo já avançou ao menos 1,1°C na média da temperatura global.

Agora, colhemos os resultados amargos: 70% da população mundial está sujeita a pelo menos três meses de calor severo por ano. Enquanto os eventos extremos assustam pela dimensão que alcançam, a Europa, nesse momento em que escrevemos essas linhas, arde com temperaturas acima de 45 graus Celsius.

Em particular, mais ocorrências de eventos climáticos extremos significa mais vidas em risco. Assim, notar-se-á que estamos diante de uma enfermidade planetária que polariza todas as atenções.

Em todo o caso, não surpreende que, quase uma década atrás, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) tenha anunciado uma verdade incômoda: “não estamos no caminho para cumprir metas de mudanças climáticas e conter aumentos de temperatura”.

Desse fundo histórico, vê-se que ainda hoje sequer conseguimos encontrar uma resposta definitiva para as nossas ações contrárias ao bom desempenho da nossa Casa Comum, isto é, o nosso planeta, sempre hostilizado pela sobrecarga da economia-mundo.

Objetivamente, sem as mínimas condições de bancar o equilíbrio do sistema climático e planetário, e longe ainda da proposta emancipatória e transformadora representada na experiência latino-americana do bem-viver, nossa civilização balança.

E balança notadamente por conta de transformações que, a rigor, se convertem em ameaças trazidas pela concepção de modernidade capitalista dominante, baseada num sistema de acumulação (o oxigênio do capitalismo). Enquanto esse sistema – e essa concepção – persistirem, continuaremos contabilizando adversidades entre o clima, descompassado, e a saúde global, bastante afetada.

(*) Gilberto Natalini é médico-cirurgião, vereador por cinco mandatos na Câmara Municipal de São Paulo. Foi secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente (2017) e candidato a governador do Estado de São Paulo pelo Partido Verde (PV) em 2014.

(**) Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Autor de Civilização em desajuste com os limites planetários (CRV, 2018) e A Civilização em risco (Jaguatirica, 2024), entre outros.

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