“Quando não mais podemos mudar a situação — pensemos, por exemplo, em uma doença incurável —, somos desafiados a mudar nós mesmos.” Estas palavras – sobre as quais o neuropsiquiatra austríaco, Viktor Frankl (1905-1997), elaborou as bases da logoterapia –, nasceram em decorrência de sua profunda experiência como prisioneiro em campos de concentração nazistas. Para ele, “os aspectos trágicos da vida podem ser enfrentados desde que o indivíduo enxergue um sentido em suas ações”.
O que realmente aconteceu com a humanidade atual, que não consegue encontrar o sentido da vida, não consegue sequer controlar níveis de estresse, por menor que sejam? A humanidade ficou mais frágil? Menos propensa a enfrentar desafios? A partir de qual geração se iniciou a fragilização das personalidades, a dificuldade de suportar qualquer frustração sem que desmoronem em suas bases e passem, constantemente, a procurar meios externos para suportar suas carências?
A cada dia, tem-se notícia de situações surreais – para não dizer verdadeiras aberrações –, divulgadas pelas redes sociais, sempre em busca de likes e engajamentos. Elas “gritam” ao mundo, para aqueles que ainda têm um pouco de equilíbrio, que algo muito sério aconteceu com a sociedade contemporânea.
Não se tem dúvida de que a chamada cultura woke teve como um de seus reflexos a fragilização dos jovens, descaracterizando a masculinidade e desequilibrando a feminilidade, em sua essência. Ser masculino, forte, provedor, ou ser feminina, delicada, intuitiva, compassiva, tornou-se uma verdadeira deturpação do sentido desses dois gêneros. Não estou me referindo aos direitos de liberdade, de autonomia, arduamente conquistados no decorrer dos últimos séculos, mas sim, abordo a falência da essência do que é realmente ser homem ou mulher, cada qual na conquista de seu lugar no mundo, mas sem perder a sua própria beleza.
Falo isto porque, além das pessoas haverem perdido sua verdadeira razão de Ser, perderam, ao mesmo tempo, a conexão com suas Almas e com o sentido da Vida. Sem sombra de dúvida, e com base no pensamento do respeitável psiquiatra a quem me reporto acima, as pessoas perderam a capacidade de reflexão sobre o sentido de suas próprias existências. Somente se se voltarem para dentro de si, buscando analisar as consequências de suas ações, poderá haver evolução e autoconhecimento. É impossível a aquisição de Sabedoria, evolução pessoal e espiritual, se a pessoa não buscar se conhecer profundamente.
Encontro-me estarrecida com a divulgação nas mídias sociais – o que se transformou em polêmica global – em torno da boneca denominada Natasha. Esse brinquedo foi criado com um objetivo: aliviar o estresse de jovens, e, pasmem, inclusive de crianças. Seu material é o silicone maleável e representa um bebê negro. Em realidade, tornou-se um gritante elemento de exposição das feridas da modernidade doente e insatisfeita, especialmente considerando que os vídeos postados retratam pessoas esmagando, perfurando, queimando, esfaqueando e simulando atos sexuais com o brinquedo. Tudo sob o pretexto de aliviar a ansiedade diária.


Isso retrata, como dito, a insanidade da sociedade contemporânea, pois esse absurdo viralizou nas redes sociais quando usuários começaram a postar tais vídeos.
Não há como deixar de refletir sobre as fragilidades psicológicas, sociais e geracionais envolvidas nesse comportamento. Qual seria o real significado de tudo isto? O que poderia nos dizer, hoje, o neuropsiquiatra Viktor Frankl?
Com certeza, o célebre pensador não poderia imaginar quão fundo do poço nossa sociedade ainda tentaria lançar a humanidade frente à desumanização e à ausência de empatia.
Sabemos que as bonecas têm o poder de projetar o afeto e fortalecer relações humanas. A gravidade desta situação se aprofunda quando escolhem a maior fragilidade existente – um bebê – e o utilizam para ser alvo de sadismo. Nada me convence de que o objetivo principal com essa deturpação evidente não seja a quebra proposital da empatia. Congelar o coração e normalizar a violência é proposital, principalmente, quando se agride a versão negra de uma boneca, revelando que esse corpo, nessa versão, pode ser violentado, como se fosse mais resiliente e aceitasse melhor a dor.
Isto representa, em verdade, uma total distorção da realidade. Por se tratar de um objeto maleável, que se deforma e se regenera imediatamente, o brinquedo pode estimular impulsos agressivos e proporcionar prazer ao usuário em função da desfiguração da imagem do bebê.
Como dito, como não refletir que toda essa demoníaca “criação” busca representar, ao mesmo tempo, o gênero feminino, os bebês e a raça negra, tornando-se o alvo perfeito para a perpetuação de opressões acumuladas na sociedade? Sim, ao transformar tortura simulada de um bebê negro em um “meme” – uma piada digital – as redes sociais também passam a dessensibilizar a população para a violência real sofrida por minorias na sociedade.
Mas o desfio não é apenas este. Encontramo-nos frente a uma questão geracional, de impossibilidade de resolver os estresses decorrentes, principalmente, do sadismo digital em busca de visualizações rápidas e engajamento. Cede-se a ética – tão esquecida – para dar espaço ao choque visual que alimenta algoritmos vorazes e desumanos.
Só cabe considerar que estamos frente a um severo retrocesso civilizatório. Gerações passadas lutaram para que a indústria fabricasse bonecas negras objetivando gerar orgulho, autoestima e equidade na infância. Com o que nos deparamos hoje, contudo, é com o avesso do avesso: o retrocesso escancarado de uma sociedade fria, que se utiliza da fragilidade das pessoas menos maduras e sem a mínima evolução espiritual para potencializar o desequilíbrio social, familiar e relacional.
E o pior: a forma violenta como crianças e adolescentes têm usado a boneca corre o risco de fazer com que essa faixa etária passe a enxergar a violência como forma de aliviar o estresse.
Felizmente, mesmo frente à cegueira daqueles que consomem e aplaudem – justificando sua agressividade como se tratasse apenas de um “meme” ou “brinquedo antiestresse”, revelando uma juventude desconectada e que perdeu a capacidade de diferenciar o lúdico saudável da crueldade explícita – grande parte da sociedade demonstrou, internacionalmente, profunda indignação e exigiu a derrubada de conteúdos.
Todo esse movimento contrário forçou o governo chinês e as agências reguladoras a banirem o brinquedo e proibirem os vídeos na internet. Será que na era digital o racismo e a barbárie se fantasiam em “alívio de estresse” para a conivência e posterior divulgação viral por parte daqueles que não possuem valores sólidos e são incapazes de refletir sobre a realidade e o sentido de suas próprias vidas?
Já passou a hora de mudarmos a nós mesmos e, de consequente, a Sociedade. O desafio já bateu às nossas portas!












