Havia um tempo em que o Nordeste acordava com o gemido das moendas. Antes mesmo que o sol terminasse de subir a serra, os bois já caminhavam em círculos, presos à canga, cumprindo uma rotina antiga, como se também eles conhecessem os segredos da cana-de-açúcar.
No sítio Oliveira, nas proximidades de Luís Gomes, as terras de meu pai não eram extensas. Não comportavam aqueles mares verdes que se estendiam pela Zona da Mata e terminavam nas chaminés das grandes usinas. Mas havia cana suficiente para fazer rapadura, mel, batida e alfenim. Plantava-se até a cana-caiana, considerada a mais nobre, de caldo abundante e doçura caprichosa.
Nos dias de moagem, mudávamo-nos para a Casa Grande do Engenho. Éramos crianças libertadas das obrigações e entregues à mais completa felicidade. O engenho inteiro se transformava em um teatro: os bois eram os atores graves; os mestres da rapadura, os maestros; e nós, a plateia inquieta, correndo de um lado para outro, querendo tocar, cheirar e provar tudo.
A cana entrava inteira na moenda e saía espremida, reduzida a bagaço. A garapa escorria por um caminho de madeira até chegar às caldeiras. No grande panelão de cobre, começava a transformação. Os mestres mexiam o líquido com movimentos pacientes. Havia uma ciência silenciosa naquelas mãos. Sabiam reconhecer, pelo cheiro, pela cor e pela consistência, o momento em que a garapa deixava de ser apenas caldo para se tornar mel; e quando o mel, engrossando sob o fogo, começava a ganhar corpo de rapadura.
Na última caldeira acontecia o milagre. A massa dourada era despejada nas gamelas e distribuída pelas fôrmas. Mãos rápidas corriam de um lado para outro, tapando vazios, acertando os cantos e alisando a superfície dos retângulos. Nenhuma criança precisava ser chamada. Aproximávamo-nos por instinto, atraídos pelo aroma.
Esperávamos a raspa da gamela.
Aquela sobra quente e pegajosa era o prêmio maior da moagem. Comíamos devagar, embora a vontade fosse engolir tudo de uma vez. O doce grudava nos dentes, queimava levemente a língua e deixava na boca um gosto que nunca mais encontrei em lugar algum. Não era apenas rapadura. Era a infância ainda líquida, recolhida antes que endurecesse.
Do lado de fora, acumulava-se o bagaço. Para os adultos, era o resto da cana; para nós, um parque de diversões. Subíamos o barranco e rolávamos sobre aquela montanha de fibras. Os fiapos entravam pelas narinas, grudavam nos cabelos e provocavam coceira no corpo. Voltávamos para casa sujos, cansados e cheirando a engenho.
Durante muitos anos, pensei que a felicidade tivesse aquele aroma: uma mistura de garapa, fumaça, terra e bagaço.
A rapadura era vendida e ajudava no sustento da família. O mel, o alfenim e a batida iam para os armazéns domésticos e adoçavam os meses seguintes. Nada se perdia. A cana alimentava a casa, movimentava o comércio e criava uma pequena comunidade em torno da moagem.
Hoje, os bois já não giram pacientemente em volta da moenda. O motor substituiu a canga, e outras máquinas vieram depois. Os antigos mestres partiram, levando consigo a medida exata do fogo e o segredo do ponto.
Mas, quando fecho os olhos, ainda vejo o caldo escorrendo para o panelão de cobre. Ainda ouço o ranger da moenda. Ainda espero, à beira da gamela, a minha porção de doce.
E compreendo que recordar é também raspar a gamela do tempo, recolhendo, no fundo da memória, o pouco de infância que ainda permanece quente











