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A economia circular urge – por Lucas Tavares

Ocupar espaço relevante no debate público é missão das mais difíceis, ainda mais quando se disputa espaço no noticiário com escândalos de corrupção, factoides eleitorais e duas guerras de impacto mundial. Mas é preciso insistir para galvanizar a opinião pública para temas inadiáveis, e tratamos aqui de reverter a tragédia anunciada das mudanças climáticas, mais especificamente com a adoção de metas ambiciosas no que se convencionou chamar de economia circular.

A hercúlea missão deste artigo é trazer à luz um dos principais desafios da humanidade. Como continuar produzindo para 8 bilhões de habitantes do planeta sem consumir de maneira predatória recursos naturais cada vez mais escassos. Sim, falemos aqui sobre reciclagem, reaproveitamento de resíduos e reuso de matérias-primas.

Estudos da Ellen MacArthur Foundation apontam que 45% do que o planeta precisa fazer para reduzir as emissões de gases de efeito estufa depende da economia circular. Os outros 55% estão ligados à transição energética.

Os números são tão eloquentes e clamam por ações. Apenas 6,9% dos materiais consumidos retornam hoje à cadeia produtiva, índice inferior aos 9,1% registrados em 2018. O desperdício gerado por esse modelo linear já custa 25,4 trilhões de euros, cerca de um terço do PIB mundial, segundo Deloitte e Circle Economy.

É nesse contexto que São Paulo realizou, na semana passada, o II Fórum de Economia Circular, como parte da São Paulo Climate Week. Mais do que ampliar o debate, é preciso produzir resultados concretos. Por isso, a Presidência da COP31 definiu uma proposta de metas globais para orientar a economia circular na próxima década para guiar o processo da conferência, em novembro.

As propostas são objetivas: ampliar a participação da eletricidade no consumo global de energia de pouco mais de 20% para 35% até 2035; reduzir pela metade o crescimento da geração mundial de resíduos; e elevar para pelo menos 15% a taxa global de uso de materiais circulares.

Essas metas representam uma mudança de patamar. Pela primeira vez, a economia circular deixa de ser apenas um ideal para ganhar objetivos mensuráveis, capazes de orientar políticas públicas, investimentos e decisões empresariais. O que não é medido dificilmente é prioridade.

O Brasil reúne condições para liderar esse movimento. Dispõe de uma matriz energética relativamente limpa, grande disponibilidade de recursos naturais e um parque industrial capaz de inovar. Transformar resíduos em matéria-prima, estimular a reciclagem e prolongar o uso de materiais significa reduzir emissões, gerar empregos, aumentar a produtividade e fortalecer a competitividade.

Os eventos extremos registrados nas últimas semanas, dos vendavais que deixaram mortos em São Paulo e no Rio de Janeiro às ondas de calor na Europa, lembram diariamente o preço da inação. A crise climática deixou de ser uma ameaça futura para se tornar uma realidade presente. O desafio agora é transformar metas em ações concretas. Porque, diante da urgência do problema, adiar decisões já não é uma alternativa.

Vinicius Saraceni é idealizador e diretor executivo do Movimento Circular e membro do comitê de especialistas do Centro Sebrae de Sustentabilidade.

Carlos Silva Filho é membro Conselho Consultivo de Personalidades Eminentes sobre Lixo Zero, board da Secretaria-Geral da ONU e presidente honorário da ISWA (Associação Internacional de Resíduos Sólidos)

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