Lula encontrou o Minotauro no próprio labirinto. Ao encará-lo, reconheceu seu reflexo: as contradições, as promessas e as exigências com que ele próprio estreitou suas saídas. Sua situação é crítica. Prometeu mais do que poderá entregar, ativou o modelo do “é dando que se recebe” e acelerou a operação de sua reeleição. Agora, procura condicionar o debate na Globo à autorização de seu oponente para a abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico. Foi além: afirmou que seu adversário é ladrão. Pretende transformar uma exigência própria em condição para o confronto eleitoral.
Encurralou-se. Flávio faria bem em não alimentar a escalada de provocações. Na minha avaliação, a reação do petista revela o temor de encerrar sua trajetória eleitoral com uma derrota. A possibilidade de perder nas urnas parece fazê-lo suar pelas têmporas. É um cenário severo para quem se apresenta como referência de honestidade e procura ocupar, sozinho, o território da superioridade moral.
Seu histórico judicial não desapareceu. No caso do tríplex, Lula foi condenado em primeira instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A condenação foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e mantida, com redução da pena, pelo Superior Tribunal de Justiça. Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações ao reconhecer a incompetência da Justiça Federal de Curitiba. Em decisão distinta, reconheceu também a suspeição de Sergio Moro no processo do tríplex. As condenações perderam sua validade jurídica, mas a anulação não correspondeu a uma absolvição pelo exame do mérito das acusações.
Lula está no pleno exercício de seus direitos políticos. Isso não impede a avaliação política de sua trajetória, assim como seu passado judicial não autoriza ignorar as decisões que anularam as condenações. O eleitor pode considerar esse histórico e cobrar explicações sobre suas escolhas, suas promessas e os resultados de seu governo. A imagem de superioridade moral não o dispensa de responder.
A campanha do medo merece igual atenção. Afirmações sobre perda de direitos, auxílios e bolsas de estudo precisam ser demonstradas, em vez de apresentadas como consequência inevitável da vitória do adversário. Políticas públicas não pertencem a um candidato. Seus beneficiários são cidadãos livres para escolher em quem votar, sem dever gratidão eleitoral a quem ocupa o governo.
No Rio Grande do Sul, a vereadora Claudia Frutuoso denunciou como perseguição política o anúncio de uma lista com mais de 60 nomes de pessoas ligadas à direita no ambiente universitário. A denúncia exige esclarecimento. A liberdade de pensamento deve proteger também quem discorda da orientação predominante em uma instituição. Universidade que reivindica pluralidade precisa conviver com a divergência.
Há, ainda, uma fragilidade no espetáculo dos sigilos: quem desvia recursos pode ocultá-los fora de suas próprias contas. Um extrato bancário, isoladamente, não encerra uma investigação nem constitui certificado de honestidade. Quanto ao sigilo telefônico, cabe esclarecer quais linhas, registros e períodos seriam apresentados. Transparência exige informação verificável e exame consistente. O desafio de palanque, por si só, não demonstra culpa nem inocência.
Cabe à população não responder às provocações com hostilidade. A melhor resposta dispensa o confronto verbal e a troca de ofensas. Em 25 de outubro de 2026, ela virá das urnas, no silêncio democrático e eficaz do voto.
Que Lula se enrede no próprio labirinto. O Minotauro tem a sua cara.












