Num campo da Ática, um velho trabalha a terra até a exaustão. Chama-se Menedemo. Tem idade para descansar, possui terras e escravos, mas insiste em realizar sozinho as tarefas mais pesadas. Intrigado, o vizinho Cremes pergunta por que ele se castiga tanto.
Menedemo, irritado, devolve a pergunta: será que Cremes não teria ocupações suficientes para deixar de se intrometer na vida alheia?
A resposta atravessaria os séculos: “Sou humano, e nada do que é humano me é alheio.”
A cena pertence a Heautontimorumenos, comédia de Terêncio representada em Roma no século II a.C. A resposta de Cremes parece desarmar a resistência do vizinho. Menedemo acaba lhe contando seu sofrimento. Fora tão severo com o filho que o rapaz partira para a guerra na Ásia. Arrependido, o pai se impunha uma penitência: não desfrutaria de conforto enquanto o filho estivesse privado dele.

Mas a comédia reserva uma ironia. Cremes, tão atento ao sofrimento do vizinho, desconhece aspectos importantes da vida do próprio filho. Sua preocupação com o vizinho parece genuína. Isso não o impede de se enganar a respeito do filho. A generosidade não o livra do engano, assim como o engano não anula a generosidade.
Uma coisa é ser incoerente com aquilo em que se acredita. Outra é descobrir que aquilo em que acreditamos não dá conta de tudo o que somos. Nem sempre uma contradição revela falsidade. Às vezes, revela uma complexidade que nossas certezas não conseguem abarcar.
Cremes não está fora da verdade que enuncia. Está dentro dela, com todas as suas imperfeições.
O que sabemos sobre os outros?
Quantas vezes, ao descobrirmos uma falha em alguém que admiramos, passamos a desconfiar de todas as suas virtudes? Ou fazemos o contrário: a admiração nos impede de reconhecer suas limitações. Como se o melhor ou o pior de alguém pudesse revelar tudo o que existe naquela pessoa.
Em Cider with Rosie, livro de memórias do escritor inglês Laurie Lee, duas senhoras idosas viviam em residências separadas, uma sobre a outra, numa antiga construção de uma aldeia inglesa.

Granny Trill e Granny Wallon se detestavam. Evitavam encontrar-se, escolhiam caminhos diferentes e mantinham uma guerra particular de provocações e pancadas no chão e no teto. A hostilidade havia adquirido a regularidade dos hábitos domésticos.
Quando Granny Trill morreu, a adversária ainda encontrou motivo para protestar durante o funeral: indignou-se com a idade atribuída à falecida. Cerca de duas semanas depois, Granny Wallon também morreu.
A rivalidade parecia apenas separá-las. Mas também organizava seus dias. Havia sempre alguém a observar, a quem responder, contra quem existir.
Laurie Lee não se limita a narrar a rivalidade das duas mulheres. Observa-as sem reduzi-las a caricaturas. Não disfarça sua teimosia, suas provocações, o ridículo daquela guerra doméstica. Mas deixa entrever, nessas duas vidas aparentemente banais, algo que ultrapassa a simples inimizade.
Quando Granny Trill desapareceu, Granny Wallon perdeu a adversária de tantos anos. Mas teria perdido apenas isso?
O rosto que não esperávamos encontrar
Por volta de 1610, Caravaggio pintou Davi com a cabeça de Golias. O jovem segura pelos cabelos a cabeça do gigante, ainda sangrando. Seria a cena de um triunfo. Mas Davi não comemora. Olha para ela com algo parecido com pena.
O rosto de Golias é o do próprio Caravaggio. A boca entreaberta, um olho ainda vivo, o outro já apagado.
Quatro anos antes, o pintor havia matado um homem numa briga em Roma. Condenado à morte, fugiu e passou os anos seguintes entre Nápoles, Malta e Sicília. Acredita-se que o quadro tenha sido destinado ao cardeal Scipione Borghese, que poderia interceder por seu perdão. Caravaggio morreu naquele mesmo ano, enquanto buscava retornar a Roma.
Ao pintar o monstro, não buscou outro rosto. Usou o seu.
As faces que ainda não conhecemos
Em Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa dá voz a Riobaldo, um homem já envelhecido que revisita sua experiência como jagunço, suas escolhas, seus amores, seus medos e suas dúvidas.

“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam.”
Mesmo quando alguém parece revelar algo essencial sobre si, o tempo continua agindo. Convicções se desfazem, sentimentos inesperados surgem, experiências modificam até a imagem que uma pessoa construiu de quem é.
As mudanças nem sempre trazem crescimento. Podem ampliar a compreensão ou estreitar os horizontes, despertar uma coragem desconhecida ou revelar fragilidades insuspeitadas.
Talvez por isso seja tão difícil encerrar alguém numa definição. Os atos continuam tendo consequências, e os julgamentos podem ser necessários. Mas nenhuma imagem, por mais convincente, consegue abarcar uma existência inteira. Nem mesmo aquela que uma pessoa faz de si própria.
No latim de Terêncio, Cremes não diz simplesmente que nada do que é humano lhe é alheio. Diz que não considera alheio nada do que é humano. Talvez haja nessas palavras menos uma certeza sobre o que se conhece do que uma disposição diante do que ainda não se compreende.
Há sempre alguma coisa que escapa ao retrato.
Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. polito@uol.com.br











