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Boicote público é selvageria e imita o nazismo – por Roberto Livianu

Ocorrido em abril de 1933, o judenboykott foi considerado historicamente o 1º ato que faz parte de uma linha do tempo sinistra que acabou escalando até a “solução final”, com o extermínio de 6 milhões de judeus, 2/3 de todos aqueles que viviam na Europa.

Não comprem de judeus! Não entrem em escritórios de advocacia de judeus! Não frequentem consultórios médicos de judeus! Em 6 anos e meio, a prática que lamentavelmente se normalizou na Alemanha nazista completará 1 século e fica a difícil e tormentosa pergunta: o que o mundo aprendeu desde 1933?

Lembremos que 2 anos atrás, durante a guerra entre Israel e Hamas, o ex-deputado federal e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) José Genoino defendeu publicamente o boicote a empresas de judeus, fazendo-nos relembrar amargamente do boicote alemão de abril de 1933, de triste memória para a humanidade.

Passados estes 2 anos, em 25 de outubro último, uma eleitora durante a votação no 2º turno destas eleições, no Rio de Janeiro, sem qualquer constrangimento, fez saudação nazista diante de uma judia e manteve a postura com plena desenvoltura mesmo depois de saber que estava diante de uma israelita, ou seja, a circunstância em nada a inibiu.

Depois da realização do 2º turno, verificou-se, entre os votos nulos, quase 15.000 deles dirigidos ao número 88. Pois bem, a 8ª letra de nosso alfabeto é “h”, letra inicial da palavra alemã Heil e “h” igualmente é a letra inicial do nome de família Hitler, a referência máxima do nazismo.

Ou seja, quase 15.000 eleitores, no momento do voto, muito possivelmente quiseram emitir deliberadamente saudação nazista que ficou impregnada nas urnas eletrônicas em 25 de outubro, ironicamente, data em que se celebra o dia da democracia.

Mas o fato é que naquele dia, numa virada que causou comoção mundial por suas circunstâncias, as urnas conferiram ao final um 4º mandato a Lula com votação recorde e, por isso, diversos líderes mundiais enviaram mensagens de cumprimentos ao reeleito, passando a ser o fato considerado feito histórico sob a ótica democrática. Mas, ao mesmo tempo, causaram as piores reações no setor bolsonarista, que não soube lidar com a frustração da derrota –o vencido fugiu do país sob patrocínio do governo dos Estados Unidos, declarando ser presidente eleito do Brazil (com z) já em solo estadunidense.

O bolsonarismo captou de forma astuciosa e meticulosa a indignação coletiva de seu grupo de seguidores, transformando indignação em ressentimento nas pessoas, que começaram a interpretar o mundo a partir desse trauma que nelas foi incutido, logo depois da derrota experimentada nas urnas.

Esta é a triste gênese do renascimento da selvageria do criminoso e inadmissível boicote público, de forma vigorosa e com grande amplitude nacional, estimulada inclusive por parlamentares bolsonaristas com expressiva influência no mundo digital.

Não comprem de empresários petistas! Demitam funcionários petistas! Não atendam clientes petistas em seus estabelecimentos! Não sirvam petistas nos seus restaurantes! Como se esse grupo de pessoas boicotadas fosse portadora de algum tipo de doença contagiosa.

Ou seja, estamos diante da difusão pública e indiscriminada do ódio, a exemplo do que ocorreu em abril de 1933 na Alemanha nazista. É bem verdade que naquela oportunidade se tratava de um boicote de origem racial e aqui o boicote tem fundo político (assim como ocorreu 2 anos atrás). Mas infelizmente estamos vivendo momentos de culto à intolerância, do estímulo à barbárie, da cultura do conflito e da perseguição pública.

Estamos diante de atitudes que representam graves afrontas à lei: crimes de stalking (perseguição), estabelecido no artigo 147 do Código Penal, assédios trabalhistas, que violam leis laborais e violações ao Código de Defesa do Consumidor no tratamento discriminatório de consumidores.

Alguns cientistas de botequim, verdadeiros poços sem fundo de egoísmo, mas que se acham merecedores do prêmio Nobel, vieram logo dizer que não houve crime porque cada um pode tomar suas decisões individuais de consumo. Mas a verdade é que aqui não se trata disso, pois falamos de graves atos de boicote público (e não, de escolhas individuais) que lembram as atrocidades de abril de 1933. A humanidade tem a obrigação de lutar para que isso jamais seja esquecido e nunca repetido e para que o mal seja cortado literalmente pela raiz. Boicote público é selvageria e imita o nazismo.


Roberto Livianu

Roberto Livianu, 58 anos, é procurador de Justiça, atuando na área criminal, e doutor em direito pela USP. Idealizou e preside o Instituto Não Aceito Corrupção. Integra a bancada do Linha Direta com a Justiça, da Rádio Bandeirantes, a Academia Paulista de Letras Jurídicas e o Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça do MPSP, eleito por seus pares. É articulista da Rádio Justiça, do STF, do O Globo e da Folha de S. Paulo. Escreve para o Poder360 semanalmente às terças-feiras.


Leia mais no texto original: (https://www.poder360.com.br/opiniao/boicote-publico-e-selvageria-e-imita-o-nazismo/) © 2026 Todos os direitos são reservados ao Poder360, conforme a Lei nº 9.610/98. A publicação, redistribuição, transmissão e reescrita sem autorização prévia são proibidas.

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