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Negociar não é vencer. É construir soluções – por Floriano Pesaro

Vivemos em uma sociedade na qual negociar se tornou uma atividade permanente. Negociamos contratos, interesses econômicos, relações profissionais, decisões políticas e até questões familiares. Paradoxalmente, quanto mais precisamos negociar, mais parece prevalecer a ideia equivocada de que uma boa negociação é aquela em que um lado vence e o outro perde.

Essa concepção empobrece os resultados e deteriora as relações. Negociar não deveria significar impor vontades, derrotar adversários ou simplesmente dividir diferenças. A verdadeira capacidade de negociação está em compreender interesses, identificar alternativas e construir soluções que produzam valor para as partes envolvidas.

A professora Leigh Thompson, da Kellogg School of Management, demonstra em seus estudos que a preparação constitui um dos principais fatores para o sucesso de uma negociação. Antes de sentar à mesa, é fundamental conhecer nossas prioridades, estabelecer objetivos, avaliar as condições de mercado e, sobretudo, identificar as alternativas disponíveis caso não seja possível chegar a um acordo.

É nesse contexto que surge o conceito de BATNA (Best Alternative to a Negotiated Agreement — Melhor Alternativa a um Acordo Negociado). Trata-se de uma ideia simples e poderosa: ninguém deveria negociar desconhecendo o que fará se a negociação fracassar. Quanto melhores forem nossas alternativas, maior será nossa liberdade para decidir e menor a necessidade de aceitar condições desfavoráveis.

Mas conhecer os próprios limites não basta. Um negociador preparado também estabelece objetivos ambiciosos, fundamentados em informações confiáveis, e procura compreender as necessidades da outra parte. Afinal, nem sempre aquilo que alguém exige corresponde ao que realmente necessita.

Uma antiga história ilustra essa diferença. Duas irmãs disputavam uma laranja e decidiram dividi-la ao meio. Somente depois descobriram que uma desejava o suco, enquanto a outra precisava da casca para preparar um bolo. Ambas poderiam ter recebido tudo o que desejavam. Faltou diálogo, não laranja.

O exemplo revela uma das maiores fragilidades das negociações contemporâneas: discutimos posições antes de compreender interesses. Isso acontece nas empresas, nas organizações públicas e, de maneira particularmente preocupante, na política.

A incapacidade de ouvir o outro transforma divergências legítimas em confrontos pessoais. Quando substituímos argumentos por ameaças, evidências por preconceitos e diálogo por demonstrações de força, reduzimos as possibilidades de construir consensos.

Isso não significa abandonar princípios ou abrir mão da firmeza. Pelo contrário. Um bom negociador precisa saber defender posições, reconhecer seus limites e preservar sua credibilidade. A firmeza, entretanto, não exige agressividade, assim como a disposição para o diálogo não representa fraqueza.

A ética também ocupa lugar central nesse processo. Promessas que não serão cumpridas, informações distorcidas e estratégias de intimidação podem produzir vantagens imediatas, mas comprometem a confiança e destroem relacionamentos de longo prazo. Reputação é um patrimônio construído lentamente e perdido, muitas vezes, em uma única negociação.

Minha experiência na administração pública e na gestão de organizações reforça uma convicção: os melhores resultados surgem quando conseguimos combinar preparação técnica, clareza de objetivos, capacidade de ouvir e responsabilidade pelas decisões tomadas.

Em um mundo marcado pela polarização, pela velocidade das redes sociais e pela crescente dificuldade de construir entendimentos, recuperar a cultura da negociação tornou-se uma necessidade institucional e democrática.

A política, em particular, precisa reaprender essa lição. Democracia não é a ausência de conflitos, mas a capacidade de administrá-los por meio de instituições, diálogo, respeito às diferenças e compromisso com o interesse público. O consenso não exige unanimidade, e a divergência não precisa produzir inimigos.

Negociar bem é reconhecer que nossos interesses importam, mas não são os únicos legítimos. É compreender que soluções duradouras exigem confiança, reciprocidade e disposição para construir caminhos compartilhados.

No fim, o verdadeiro êxito de uma negociação não está em demonstrar quem venceu a disputa, mas em verificar o que foi possível construir a partir dela.

Porque negociar não é simplesmente ganhar do outro. É encontrar soluções que não existiriam sem o outro.

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