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A CESTA BÁSICA NÃO SACIA O BÁSICO por Alexandre Vasserman

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Um terço da comida produzida no mundo é desperdiçada. Cada dia mais comentado, esse dado, reportado pelo estudo divulgado em 2022 pela Waste Management as a catalyst to a Circular Economy (Gestão de Resíduos como catalisador de uma Economia Circular, em tradução livre) atesta os níveis absurdos de descarte e perda de alimentos bons para o consumo, enquanto 811 milhões de pessoas passam fome. Quando olhamos o cenário brasileiro, a situaç&atild e;o é ainda pior: dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar mostram que cerca de 60% da população no Brasil vive com algum grau de em insegurança alimentar, enquanto 40% da produção vai para o lixo, segundo dados da ONU.

A alarmante disseminação da fome persiste, evidenciando desigualdades socioeconômicas brutais. Enquanto isso, as políticas públicas, bem como grande parte dos projetos privados voltados para a mitigação da insegurança alimentar, muitas vezes se baseiam na distribuição de cestas básicas como medida central, embora os dados sociodemográficos apontem para a necessidade de abordagens mais abrangentes e eficazes, uma vez que a cesta possui uma quantidade limitada de produtos que não suprem as necessidades alimentares básicas dentro do período a que são estipuladas. Além disso, essas ferramentas também são muitas vezes utilizadas como doações pontuais, gerando um efeito ainda mais limitado.  

Adicionalmente, o desperdício de alimentos emerge como um problema crítico a ser abordado, caracterizado muitas vezes como produtos excedentes não vendidos, que poderiam ser redirecionados. Soluções que visam reduzir o desperdício alimentar canalizando excedentes para populações em vulnerabilidade social, representam uma abordagem viável e inteligente. Ao redirecionar os alimentos que seriam descartados é possível promover uma solução recorrente, eficiente e por vezes muito mais completa do que fornecer apenas cestas básicas. A implementação de políticas que promovam o incentivo na indústria e varejo de alimentos a repensarem o descarte de alimentos bons para o consumo pode ser absolutamente transformadora.

Apesar do panorama virtuoso, a realidade, no entanto, ainda é bastante distante. O governo Federal, por exemplo, tem sido ineficiente na resolução da fome no país e não investe de fato na criação de novas políticas públicas que solucionem o problema. Este é o caso do Brasil sem Fome, programa que praticamente apenas repete ações passadas e não encara o problema de forma estruturada, inovadora, visto que não se conecta com atores essenciais neste contexto – como a indústria de alimentos e o setor supermercadista – e o principal: não investe em novas tecnologias.

De acordo com uma pesquisa da Mckinsey, trabalhando juntos e de forma conectada, a indústria, o varejo, o governo e as ONGs podem reduzir a perda de alimentos em 50 a 70% e direcionar para as pessoas que vivem em situação de insegurança alimentar. Para isso, é fundamental investir em soluções de tecnologia e envolver todos os atores na cadeia de alimentos em um compromisso para a redução do desperdício de alimentos e redistribuição às populações que mais precisam, indo além da entrega do básico.  

A gestão eficiente certamente consegue contribuir para um combate efetivo à insegurança alimentar, já que garante a quem não tem acesso ao alimento, comida na mesa todos os dias. E vai muito além: contribui também para diminuir a geração de lixo, ajudando o setor de alimentos a tomar medidas ESG realmente práticas e verdadeiras, pois evitam um grande passivo ambiental e geram sustentabilidade financeira aos seus próprios negócios. Além disso, a medida prevê melhor uso dos recursos públicos direcionados aos temas, que podem ser realocados, já que se substitui o dispêndio financeiro para a compra de cestas básicas (que é contínuo e nunca suficiente), e gera ganhos para o setor alimentício, que reduz custos com descarte de alimentos e inefici&eci rc;ncias operacionais relacionadas.

A boa notícia é que já existem empresas e startups especializadas em conectar os principais atores dessa discussão – indústria de alimentos, varejistas e ONGs – e orientar o redirecionamento dessa comida para a mesa dos mais vulneráveis. Está mais do que na hora de uma revisão das estratégias de combate à fome promovidas pelo Governo Federal, sendo fundamental investimento em iniciativas e novas políticas públicas que assegurem a segurança alimentar e otimizem recursos que já existem para gerar um impacto verdadeiro na sociedade. 

*Alexandre Vasserman é CEO da Infineat, startup que tem a missão de erradicar a fome no país, combatendo o desperdício de alimentos através da tecnologia. 

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