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A convivência com os amigos – por Ricardo Cavalcanti

À medida que os anos passam, aprendemos que a vida é feita de ciclos. Os filhos crescem, os netos descobrem o mundo e cada geração segue o seu próprio caminho. A família continua sendo o porto seguro da existência e ocupa, com justiça, o primeiro lugar em nossos afetos. Mas é justamente nessa etapa da vida que os amigos assumem um papel insubstituível.

Aristóteles, talvez o maior filósofo da Antiguidade, escreveu que “sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens”. Séculos mais tarde, Cícero dedicou um livro inteiro ao tema e concluiu que, depois da sabedoria, nada foi dado ao homem de mais valioso do que a amizade. A história lhes deu razão.

Os amigos são a família que a vida nos permite escolher. São eles que conhecem nossas virtudes e nossos defeitos, testemunham nossas conquistas, confortam-nos nas derrotas e permanecem ao nosso lado quando o entusiasmo dos dias de glória já passou. A verdadeira amizade não se sustenta no interesse, mas na lealdade, no respeito e na alegria da convivência.

Depois de certa idade, um almoço entre amigos, um café sem pressa ou uma longa conversa tornam-se um extraordinário exercício de saúde física e emocional. Relembrar acontecimentos, comentar o presente, rir das próprias histórias e, por que não, exagerar um pouco nos relatos é um privilégio que apenas os bons amigos compreendem. O humor compartilhado também é uma forma de sabedoria.

Vivemos, paradoxalmente, na era da comunicação instantânea e da solidão crescente. Nunca foi tão fácil colecionar contatos e tão difícil cultivar amizades profundas. A tecnologia aproxima as pessoas pelas telas, mas não substitui o aperto de mão, o olhar sincero nem a conversa sem relógio.

A ciência confirma aquilo que os filósofos intuíram há mais de dois mil anos. O Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard, um dos mais longos já realizados sobre felicidade e qualidade de vida, demonstra que relacionamentos sólidos e amizades verdadeiras são fatores decisivos para uma vida mais saudável, mais feliz e até mais longa.

O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry lembrava que “é o tempo que dedicas à tua rosa que a faz tão importante”. O mesmo acontece com a amizade. Ela precisa de tempo, presença e cuidado. Não floresce no abandono nem resiste à indiferença.

Talvez devêssemos dedicar menos esforço à busca de bens materiais e mais atenção às pessoas que caminham ao nosso lado. O patrimônio financeiro pode sofrer perdas; cargos e prestígio são passageiros. As amizades verdadeiras, entretanto, permanecem como um dos poucos tesouros que o tempo não consegue desvalorizar.

No fim da vida, dificilmente alguém será lembrado pelo saldo bancário que acumulou. Será lembrado pela generosidade que demonstrou, pela lealdade que inspirou e pelos amigos que conquistou. Porque, afinal, uma vida bem-sucedida não é apenas a que alcança grandes realizações, mas a que deixa saudades nas pessoas que tiveram o privilégio de compartilhar sua caminhada.

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