Home / Política / Pescadores de ilusões – por Foch Simão

Pescadores de ilusões – por Foch Simão

“Dê um peixe a um homem e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar e você o alimentará por toda a vida.” A célebre máxima atribuída à escritora britânica Anne Isabella Ritchie encerra uma das mais profundas lições sobre a natureza do desenvolvimento humano: a prosperidade nasce da autonomia, não da dependência. A riqueza de uma nação não é produzida pela distribuição contínua de recursos, mas pela capacidade de seus cidadãos de gerar valor por meio do conhecimento, do trabalho, da inovação e do empreendedorismo.

Ao longo da história, as sociedades que alcançaram elevados padrões de desenvolvimento compreenderam que o verdadeiro papel do Estado consiste em criar instituições sólidas, garantir segurança jurídica, oferecer educação de excelência, infraestrutura eficiente e igualdade de oportunidades. O Estado deve ser um facilitador da produção, jamais um substituto permanente da iniciativa individual.

No Brasil, entretanto, observa-se, na visão aqui defendida, a consolidação de um paradigma distinto. A política social deixa de ser um instrumento transitório de proteção aos vulneráveis para transformar-se em mecanismo permanente de construção de dependência política. Em vez de ensinar milhões de brasileiros a “pescar”, multiplica-se a distribuição do “peixe”, convertendo direitos emergenciais em estruturas permanentes de sustentação eleitoral.

Esse fenômeno ultrapassa o assistencialismo tradicional e aproxima-se do que a literatura de economia política identifica como clientelismo estatal, o mecanismo da utilização recorrente da máquina pública para fortalecer vínculos de dependência entre governantes e parcelas do eleitorado. O benefício deixa de representar apenas proteção social e passa a adquirir valor político, criando incentivos para sua contínua expansão, independentemente de sua sustentabilidade fiscal ou de seus efeitos sobre a produtividade nacional.

Sob o ponto de vista macroeconômico, essa dinâmica produz consequências profundas. A ampliação contínua das despesas obrigatórias deteriora o equilíbrio das contas públicas, impulsiona o crescimento da dívida governamental e favorece a instalação da dominância fiscal, situação em que a política monetária perde parte de sua eficácia diante da fragilidade das finanças públicas. Para compensar o risco crescente, o Estado remunera seus títulos com taxas de juros cada vez mais elevadas, deslocando a poupança nacional para o financiamento do setor público.

O resultado é conhecido pela teoria econômica como crowding out, o fenômeno onde os recursos que poderiam financiar investimentos produtivos, inovação tecnológica, expansão industrial e geração de empregos são absorvidos pelo

Tesouro Nacional. O capital de investimentos  migra da economia real para o mercado de títulos públicos, reduzindo o potencial de crescimento da produtividade e perpetuando um ciclo de baixo desenvolvimento.

Forma-se, assim, uma engrenagem perversa. O crescimento econômico desacelera, a arrecadação torna-se insuficiente, a carga tributária aumenta, os juros permanecem elevados e o investimento privado recua. Para compensar os efeitos sociais dessa estagnação, expandem-se novamente os programas assistenciais, retroalimentando o mesmo modelo que contribuiu para a deterioração fiscal. A dependência converte-se em política de Estado.

As consequências não são apenas econômicas. Elas alcançam a dimensão moral da sociedade. O mérito, a qualificação profissional, o esforço individual e o empreendedorismo deixam de ocupar posição central na mobilidade social. Em seu lugar, fortalece-se a percepção de que a ascensão depende cada vez mais da proximidade com o Estado do que da capacidade produtiva do cidadão. A autonomia cede espaço à tutela; a cidadania transforma-se em dependência; e o eleitor aproxima-se da figura do antigo vassalo, cuja sobrevivência depende da benevolência do soberano.

Nenhuma civilização construiu prosperidade duradoura distribuindo riqueza que ainda não produziu. A história demonstra que sociedades livres enriquecem quando estimulam o investimento, a educação, a inovação e o trabalho produtivo. Programas sociais possuem legitimidade enquanto instrumentos de proteção temporária aos mais vulneráveis; tornam-se problemáticos quando substituem políticas de emancipação econômica.

O Brasil encontra-se diante de uma escolha histórica. Pode continuar ampliando uma estrutura que administra a pobreza e perpetua a dependência, ou pode investir na formação de cidadãos capazes de produzir sua própria prosperidade. A primeira alternativa rende dividendos eleitorais imediatos; a segunda constrói uma nação.

Enquanto prevalecer a lógica de distribuir peixes em vez de ensinar a pescar, permaneceremos presos a um modelo que transforma cidadãos em dependentes, contribuintes em financiadores de um Estado cada vez mais oneroso e governantes em pescadores de ilusões, lançando suas redes não sobre os rios da prosperidade, mas sobre o oceano das esperanças de um povo que continua aguardando as condições para construir, com o próprio trabalho, o seu futuro.

Marcado:

Sign Up For Daily Newsletter

Stay updated with our weekly newsletter. Subscribe now to never miss an update!

[mc4wp_form]

Deixe um Comentário