“Sim, vovó, acho que o ser humano se tornará menos inteligente com a IA”, foi a resposta do meu neto de 13 anos, quando tomávamos café da manhã, neste último domingo. Chamou-me a atenção porque não era um expert em tecnologia ou filosofia que se posicionava face a um questionamento que lhe fizera. Trata-se de um pré-adolescente que passa tempo do seu dia jogando na internet e, segundo ele, sua escola ainda não explora, em sala de aula, as ferramentas da Inteligência Artificial.
Tenho refletido muito sobre o mundo novo que se descortina a nossa frente. Vivenciei transformações tecnológicas profundas, desde os primeiros modelos de telefone até agora, com a inserção, cada dia mais intensa da IA, em todos os segmentos da sociedade.
Inexistem dúvidas de que o maior valor da Inteligência Artificial se encontra na automação das tarefas repetitivas, que permitirá, aos humanos, uma maior dedicação a atividades mais complexas e criativas.
Neste ponto, fica a questão: qual o percentual de ser humano se dedicará às atividades mais complexas e criativas? Qual o impacto negativo do uso de ferramentas de IA nas habilidades de pensamento crítico? Interferirá na empatia, na capacidade de sentir o outro e a natureza, como parte de si mesmo?
Neste mesmo domingo, como em um fluir perfeito da vida, fui com os netos visitar a exposição “Sou o Outro do Outro”, uma obra de arte da artista britânica Es Devlin, que nos convida, desde o momento que adentramos ao espaço, a abandonar o papel de espectador para verdadeiramente integrar a sociedade temporária que se apresenta. Naquele campo, identidade, memória e convivência se constroem no encontro com o Outro.


Considerei a experiência encantadora, profundamente pertinente e adequada aos desafios inerentes ao momento atual que vivemos. Esta obra, conduzida por especial delicadeza emanada pelo talento dessa maravilhosa artista está cumprindo seu papel primordial de comunicar sentimentos, ideias e visões de mundo e uma forma singular de expressar profunda reflexão humanista, convertendo a vivência de cada visitante em parte integrante da obra.
Percebi que a artista demonstrou subliminarmente uma preocupação profunda com o momento tecnológico atual da humanidade, um verdadeiro e real tempo de transformação das relações pessoais, sociais e do ser humano para consigo mesmo: a forma como nos enxergamos frente a esta intensificação das inovações que nos estão sendo impostas.
A inserção da Inteligência Artificial em nossas vidas, com todas as facilidades e maravilhas que demonstra possuir, pode nos levar a potencial desconfiguração das nossas mentes em incalculáveis aspectos e nos transformar em seres mecânicos, desumanos, egoístas e sem empatia.
A artista britânica nos propõe um aprofundamento consciente da nova realidade que se apresenta ao nos levar a considerar a possibilidade de mantermos um especial e humanista olhar, sobre a forma como existimos e nos relacionamos. A exposição, cuidadosamente organizada em capítulos, conduz o expectador a uma mesma reflexão: existimos apenas através daqueles que nos veem, nos leem e nos refletem. A construção de memórias por meio das experiências obtidas, nos conduz a uma reflexão essencial sobre nossa identidade, no encontro com o outro, porque existimos inevitavelmente em constante relação de troca.
Estas reflexões nos reportam a projeções fundamentadas e divididas entre o otimismo tecnológico e o alerta humanitário, pois não temos uma noção exata ou consensual a respeito do futuro da tecnologia. Temos somente uma certeza: cientistas, filósofos e líderes globais concordam que a Inteligência Artificial moldará profundamente a nossa existência, frente a possibilidade de delegação de integral transferência de decisões lógicas e da escrita para as máquinas. Isto seria catastrófico. Perder-se-ia a capacidade de reflexão, redução ou mesmo supressão da inteligência emocional e do senso crítico humanos.
Sim, a mudança profunda de comportamento, aliada à erosão das funções cognitivas e o impacto na identidade e no propósito de vida, juntas, e provavelmente inevitáveis, causa preocupação frente ao futuro incerto da humanidade. Segundo especialistas, é indubitável que a integração da IA transformará a identidade humana e as estruturas sociais.
Para preservar a lógica, a reflexão profunda e a conexão com o nosso próprio Ser, em um mundo dominado pela Inteligência Artificial, a humanidade precisará fazer um esforço consciente de resistência cognitiva, pois existe o grande risco de começarmos a pensar de forma puramente utilitária, rápida e superficial, como a máquina.
Importante preservarmos a nossa essência intacta, mantendo contato com a natureza, nos aprofundando nas reflexões filosóficas, com certeza, verdadeiro escudo de proteção da humanidade.
A evolução do ser humano não pode significar submissão e entrega aos comandos da Inteligência Artificial. Somos Seres Divinos e cabe a cada um de nós nos conscientizarmos de um aspecto muito simples: a máquina, em sua perfeição de processamento de dados, é apenas uma máquina. Cabe a cada um de nós mantermos a percepção clara e inegociável de quem verdadeiramente somos e do que nos torna únicos: somos seres com a capacidade de sentir, sofrer, amar e contemplar. Isto nenhuma máquina poderá nos roubar.
Somente seremos sequestrados pela Inteligência Artificial se assim o permitirmos.
O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han em seu ensaio “Não-coisas: Reviravoltas do mundo da vida” se tornou uma das vozes mais críticas da atualidade, ao abordar a compreensão da perda do “Ser” na era digital. Argumenta, em outras de suas obras que o excesso de informação – que denomina “infocracia”, destrói o pensamento longo e o silêncio, transforma o ser humano em uma máquina de produzir e consumir dados rápidos e extingue a nossa capacidade de contemplação. Para ele, a nossa existência é ancorada nas coisas físicas, com peso, textura, envelhecimento, e, hoje, ao sermos moldados por informações, sofremos uma tremenda mudança na percepção da realidade, que se desmaterializa. Considera o smartphone um aparelho que processa e gera “não-coisas”, que, com sua tela lisa e sem resistência, elimina o atrito do mundo real, elimina a alteridade, isto é, elimina o “Outro” que pensa diferente, que nos desafia, que nos frustra.

O pensamento deste extraordinário filósofo se encontra em precisa e perfeita sintonia com a mensagem que nos transmite a artista britânica Es Devlin, que “grita”, nos exorta a pensar, refletir, vivenciar a experiência de que “Ser o Outro do Outro” é o recurso. Esta é a tábua de salvação que nós, como seres humanos possuímos para não sucumbirmos às tentações da Inteligência Artificial, para não nos esquecermos da nossa Identidade, da nossa conexão com nosso Ser Divino, livre e vívido em nós.












