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A política que mantém mulheres na funcionalidade social e longe do poder – por Luciana Sonck

Esses tempos ouvi de um homem adulto a frase “você precisa ser mais sábia”. A fala me intrigou pelo contexto: “sábia”, ali, era a mulher que sabe a hora de falar para não provocar, não importunar, não irritar um homem e, assim, causar o menor incômodo possível. Já vivi inúmeras situações em que me pediram para ser “a mulher sábia”, no trabalho, no ambiente doméstico e na vida pública. Mas essa “sabedoria” raramente tem a ver com o caminho que escolhi, que passa por enfrentar decisões tomadas por homens em posições de poder.
 
Esse diálogo ocorreu em pleno 2026. Apesar das expectativas de um mundo mais justo, o que se impõe é bem diferente. As mulheres seguem em evidência sobretudo quando o assunto é a violação de seus corpos. Casos como o do milionário Epstein, que por décadas comandou um cartel de abusos sexuais infantis, ou decisões como a da Justiça de Minas Gerais que consensuou sobre o relacionamento entre uma criança de 12 anos e um homem de 35, compõem o retrato de manchetes recorrentes. Somam-se a elas os dados alarmantes de feminicídios, abusos e violências. Muitas vezes, quando uma mulher se posiciona — ou quando não é “sábia” o suficiente — é nesse lugar que ela aparece.
 
Por mais que avancem agendas de proteção e direitos, por mais que cresçam, ainda que lentamente, a presença de mulheres em cargos de liderança e a renda média, a transformação segue ínfima. Paul Polman, no B20 Summit Brazil de 2024, sintetizou bem essa armadilha: “Ser menos mal é ainda ser mal”. A agenda de gênero avança nesse mesmo compasso, colecionando melhorias que não resolvem o essencial.
 
Os dados reforçam essa realidade. O estudo “Piores cidades para ser mulher” aponta que 85% das cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes estão muito ruins para as mulheres viverem. Diante disso, algumas respostas institucionais começam a surgir, como a criação da primeira Câmara Técnica de gênero no Tribunal de Justiça do Paraná, com potencial para tirar mulheres das primeiras páginas dos cadernos policiais.
 
A construção de uma agenda positiva de gênero no Brasil é travada por um projeto político que mantém as mulheres na funcionalidade da vida. Segundo o IBGE, somos nós que dedicamos o dobro do tempo ao cuidado doméstico e de terceiros. Nesse cenário, torna-se difícil construir um país em que sejamos protagonistas de outras manchetes. Onde há maioria feminina nas bancadas legislativas, os avanços tendem a ser consideráveis. O México mostra isso ao adotar a paridade eleitoral e eleger, em 2024, sua primeira presidenta.
 
No Brasil, seguimos distantes dessa inflexão. Iniciativas como o Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio são fundamentais, mas ainda operam quase exclusivamente na contenção da violência extrema. Quando mulheres são realmente sábias, desenvolvem uma compreensão profunda do sistema que as oprime e operam mudanças estruturais assim que o poder da caneta lhes é dado.
 
Em um ano eleitoral, que possamos decidir para que, ao tratar de gênero, as manchetes não sejam a violência, mas a prosperidade de um país em erupção feminina.

Luciana Sonck é mestra em planejamento territorial, especialista em governança e CEO da Tewá 225

Sobre a Tewá 225 

A Tewá 225 é uma consultoria que realiza estudos e projetos para enfrentar problemas socioambientais das empresas, organizações e governos. Desde 2013, emprega uma metodologia própria de escuta e participação social na construção de estudos e soluções com recortes de gênero, raça, territorialidade e gestão do conhecimento. A empresa já atuou em parceria com mais de 50 empresas e organizações, como Unesco, ONU Mulheres, GIZ, WRI, Organização Internacional do Trabalho (OIT), Unicef, reNature, Auren Energia, Tereos, Fundação Tide Setubal e Instituto Votorantim, em mais de 200 cidades de todas as regiões do país. A Tewá 225 é composta 100% por mulheres, certificada pela Rede Mulher Empreendedora, membro da rede Parceiros Pela Amazônia (PPA) e signatária do acordo “Race to zero” (compromissos de redução de emissões de carbono ou neutralização de suas emissões), pelo qual também integra a rede SME Climate Hub.

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