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A régua do tempo – por Gaudêncio Torquato

Sêneca, o filósofo nascido em Córdova, na Espanha, no primeiro século antes de Cristo, deixou à humanidade uma advertência que atravessa os séculos: não é curto o tempo que temos, mas muito dele desperdiçamos. A vida não nos é entregue em pequenas porções. Nós é que a encurtamos, deixando escapar pelas frestas dos dias aquilo que deveria permanecer guardado na alma.

Durante muito tempo, não compreendi inteiramente a lição do velho pensador. Imaginava que a vida fosse uma estrada comprida, dessas que se perdem no horizonte, sem que o viajante consiga enxergar o fim. Caminhava apressado, perseguindo objetivos, disputando espaços, cumprindo compromissos, vencendo desafios. A existência parecia uma sucessão interminável de manhãs.

E, no entanto, enquanto eu corria atrás do futuro, o passado ia se acumulando silenciosamente às minhas costas.

Deixei pedaços da vida pelo caminho. Alguns ficaram nas esquinas da juventude, outros nas salas de aula, nas redações dos jornais, nos corredores das instituições, nas mesas de conversa, nas amizades que o tempo foi afastando. A vida competitiva, com suas urgências e exigências, acabou por me distanciar de grupos e afetos que ajudaram a construir minha identidade. Hoje reconheço que essa corrida, tantas vezes desnecessária, corrói uma parcela da humanidade que nos habita.

Felizmente, ainda conservo o hábito de revisitar os caminhos percorridos. Faço viagens interiores. Volto às paisagens da infância, aos rostos familiares, às vozes que pareciam eternas. Percorro a distância entre o ontem e o hoje como quem atravessa uma ponte suspensa sobre o rio da memória.

Nessas viagens, encontro Vanderlei.

Amigo querido, neurocirurgião, paraibano de nascimento, homem de inteligência aguda e sensibilidade rara, hoje recolhido à tranquilidade de um bucólico pedaço de chão numa ilha do nosso litoral. Vanderlei sempre teve uma maneira singular de traduzir os mistérios da existência. Não precisava de tratados filosóficos para explicar a passagem do tempo. Bastavam-lhe as mãos.

“Olhe a régua, olhe a régua!”, advertia.

E abria as mãos diante de mim, desenhando no ar uma régua imaginária de cem centímetros.

“Até aqui, cinquenta”, dizia, apontando para o meio. “Depois desse ponto, meu amigo, o tempo começa a correr mais depressa.”

Eu sorria. Achava graça naquela geometria da existência. Cinquenta centímetros para a primeira metade da vida. Outros cinquenta para o restante. Uma matemática aparentemente simples, mas carregada de inquietante sabedoria.

Vanderlei sabia o que dizia.

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