A cada 4 anos, o Brasil vive uma catarse coletiva que dura cerca de 1 mês em torno de um poderoso objeto esférico: Sua Majestade, a bola de futebol. O mundo todo se conecta e torce durante a Copa do Mundo, mas entre nós o fenômeno tem contornos infinitamente mais profundos e impactantes.
Alguns dirão que as coisas têm mudado, já que outros esportes, como o vôlei, a Fórmula 1 (com Ayrton Senna) e o tênis (com Guga no passado e agora com João Fonseca), cresceram em importância para os brasileiros. E a esse fator somam-se os 24 anos de insucessos (a última Copa foi vencida em 2002).
As falcatruas do mundo opaco do futebol, povoado por escândalos variados e histórias de abuso de poder (aqui retiraram da presidência da CBF Ricardo Teixeira, José Maria Marin, Marco Polo del Nero, Rogério Caboclo e Ednaldo Rodrigues), podem ter se somado nesse processo de desgaste, perda de credibilidade e desinteresse.
Não se pode deixar de registrar o processo de elitização da torcida nos estádios nas Copas, pelos aumentos estratosféricos dos preços dos ingressos pela Fifa (em 2026 aumentaram 22 vezes), tornando esses espaços limitados às classes mais abastadas e aos amigos dos cartolas da Fifa e das confederações.
É compreensível a sede pelo poder quando nos deparamos com o fato de que o salário do presidente da CBF está na casa de R$ 1 milhão por mês (incluída a receita como membro da Conmebol), valor muito superior à média remuneratória de executivos de grandes empresas, além de outros benefícios, como levar familiares e pessoas próximas em voos de classe executiva e hospedagens luxuosas para acompanhar jogos de futebol mundo afora.
Aliás, recentemente se divulgou que o atual presidente da CBF, Samir Xaud, nesta Copa teria levado simultaneamente a esposa e uma outra companhia feminina constante para assistir a jogos por conta da CBF. Ao ser publicada a história, teria corrido ressarcir os valores referentes a essa outra “companhia feminina constante”, em sinal sintomático de reconhecimento da impropriedade do pagamento.
Fora os gravíssimos escândalos de corrupção que envolveram Teixeira, Marin e Marco Polo, que receberam penas severas que incluem o banimento do futebol, especificamente em relação ao antecessor, Ednaldo, divulgou-se que o dinheiro da entidade teria sido utilizado para bancar despesas que vão além do desenvolvimento do esporte, como a contratação de garotas de programa para acompanhar convidados VIP da confederação.
Nesta Copa, quebrou-se o tabu de jamais ter um estrangeiro como técnico da seleção. O italiano multicampeão Mister Carlo Ancelotti é o mais bem remunerado entre todos os técnicos das seleções, mesmo não sendo o Brasil o país mais rico dentre eles.
Mas o fato de não ser brasileiro não tornou o Mister imune às pressões e ao jogo de influências e interesses financeiros que envolvem a escolha dos jogadores que comporão a seleção canarinho. De todas elas, destaque para a polêmica inclusão do nome de Neymar, que já viveu o auge no futebol muitos anos atrás, jogando de forma inconstante no seu clube e frequentemente lesionado, tendo sido muitas vezes associado a escândalos da vida privada das mais diversas tonalidades.
Ancelotti afirmou categoricamente que Neymar somente seria convocado se estivesse 100% fisicamente, mas, após altíssima pressão de diversos segmentos em favor do jogador, ele foi convocado, mesmo estando longe dos 100%, em frontal contradição às declarações do Mister.
E já jogamos duas das 8 partidas que ele poderia em tese disputar (se formos finalistas), e delas Neymar esteve ausente –aliás, ficou literalmente longe da dinâmica concreta coletiva do jogo em campo por quase 40 dias. Não significa que não possa vir a participar da partida de 4ª feira (24.jun.2026) contra a Escócia, marcando gols, sendo decisivo e até o protagonista da sonhada conquista do hexa. Possível, mas pouco provável diante de todo o contexto.
As seleções convocaram 26 jogadores em condições de jogo e não se pode renunciar a qualquer dessas posições em virtude do altíssimo nível técnico das concorrentes. Basta conferir os resultados iniciais de França, Argentina, Alemanha, Espanha, Noruega e até do anfitrião Estados Unidos. Sem esquecer Portugal, apesar do início claudicante.
O ponto central é a falta de transparência, marca registrada na gestão do futebol brasileiro. Por que tudo é obscuro em relação à condição física de Neymar, deliberadamente escondido atrás da vaga declaração de que sua recuperação segue dentro do previsto, o que nada esclarece? Uma coisa é guardar segredo sobre estratégias táticas, outra bem diferente é sonegar informações claras sobre o estado de saúde do jogador e sobre tudo que está em torno disso.
Ainda que a CBF seja um organismo privado (elege seu presidente de forma indireta, pelo voto dos presidentes de federações estaduais), o futebol brasileiro faz parte de nosso patrimônio cultural, interesse difuso de grande relevância, e o dever de transparência e de fornecer informações em relação a seus atos decisórios integram o campo do dever ético de prestar contas que dizem respeito a todos.
Temos direito a informações claras e precisas, e essa atitude historicamente opaca é condenável e desrespeitosa à sociedade. Deve ser substituída pela integridade plena das prestações de contas em relação a tudo e a todos. O caso Neymar (apelidado nas redes sociais como o primeiro convocado na história das copas que atua home office) é apenas mais um mau exemplo que infelizmente vem se repetindo ao longo do tempo.

Roberto Livianu, 57 anos, é procurador de Justiça, atuando na área criminal, e doutor em direito pela USP. Idealizou e preside o Instituto Não Aceito Corrupção. Integra a bancada do Linha Direta com a Justiça, da Rádio Bandeirantes, e a Academia Paulista de Letras Jurídicas, integra o Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça do MPSP, eleito por seus pares. É articulista da Rádio Justiça, do STF, do O Globo e da Folha de S. Paulo. Escreve para o Poder360 semanalmente às terças-feiras.












