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Ganhamos o hexa! – por Roberto Livianu

Mas não aquele que os brasileiros queriam, infelizmente. Completamos o maior de todos os ciclos de nossa história invictos, sem conquistar a Copa. São 6 e em 2030, quando ela completa 1 século desde a 1ª no Uruguai (o 1º campeão), teremos jogos no próprio Uruguai, além da Argentina, Paraguai, Portugal, Espanha e Marrocos; serão 28 anos sem vencer –última taça foi erguida por Cafu em 2002.

A pequena Cabo Verde, que arregimentou a torcida do mundo para si, jogou com muito mais alma, raça e entusiasmo que o Brasil. Com mais personalidade, brio, fibra e coragem, e deixa uma impressão melhor. A soma da folha de pagamento dos seus 11 não chega ao valor do salário de Vini Jr., para se ter a dimensão abissal que separa as duas seleções. Seu goleiro, Vozinha, tinha 50.000 seguidores no início da Copa e já ultrapassou 20 milhões. Cabo Verde chegou estreante em copas e se despediu gigante.

Certamente contribuiu o fato de o presidente da confederação caboverdiana não ter financiado a ida à competição com dinheiro da entidade simultaneamente da esposa e da amante e, ao ser descoberto, correr para depositar o valor referente aos gastos da amante. Assim como o fato de seu antecessor não ter usado dinheiro da entidade para pagar pelos serviços de garotas de programa para convidados da confederação.

Em Cabo Verde ninguém se jactou como o responsável pela convocação de algum jogador –quem convocou os 26 foi o técnico. Seguramente lá os modestos recursos foram mais bem investidos, com mais profissionalismo, e os frutos foram colhidos nesta Copa.

A falta de compromisso na gestão da CBF, onde brotam eminências pardas, onde viceja a cultura dos privilégios e onde os presidentes foram sequencialmente retirados do poder por abuso (Ricardo Teixeira, Marco Polo del Nero, José Maria Marin, Rogério Caboclo e Ednaldo Rodrigues), cria uma conjuntura em que temos um médico processado por improbidade administrativa que assumiu o poder sem jamais ter presidido uma federação anteriormente e que provém de uma unidade da federação cujos times mais bem posicionados estão na série D do Brasileirão (Roraima) –São Raimundo, Monte Roraima e GÁS.

Além disso, depois de uma sequência de eliminações em Copas por seleções europeias a partir de 2006, as últimas 3, jamais campeãs, são de 2ª prateleira (Bélgica, Croácia e Noruega). Neste quadriênio tivemos 4 técnicos, média de 1 por ano. Para comparar: Didier Deschamps dirige a seleção francesa há 14 anos (3 Copas), Lionel Scaloni comanda a Argentina há 8 (duas Copas) e Stale Solbakken está à frente da Noruega há 6, ficando em só 3 eloquentes exemplos.

O fracasso retumbante obviamente decorreu de múltiplos fatores, mas é fácil perceber que nessas últimas 3 décadas seleções como a França, por exemplo, evoluíram e construíram esquadrões potentes, vigorosos e criativos, que enchem os olhos do mundo. Campeã em 1998, vice em 2006, quartas em 2014, campeã em 2018 e vice em 2022. Alguém acha honestamente, sem ufanismo, que teríamos condições de enfrentar de igual para igual na Copa de 2026 Mbappé, Dembelé, Olise, Barcola, Doué e companhia limitada?

Por tudo, apesar de ser a CBF organismo privado, cujo presidente é eleito pelos presidentes das federações estaduais, o futebol faz parte do patrimônio cultural nacional no país do futebol, que se paralisa durante a Copa do Mundo.

Isso deveria levar a confederação a mais integridade e transparência. Seria saudável para a proteção do interesse público que houvesse fiscalização das contas e das ações da confederação pelo Ministério Público pelo objeto em questão –seria necessária mudança de lei.

Sim, temos 5 estrelas no peito e nesta copa nenhuma outra seleção poderá nos igualar (Alemanha e Itália têm 4 e estão fora). Mas Argentina já tem 3 e pode chegar à 4ª, a França tem duas e pode conquistar a 3ª e a Espanha pode conquistar a 2ª. Ou seja, nossos adversários estão chegando e aproxima-se o fim de uma era de ouro hegemônica que teve Pelé, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu, Kaká.

É cabotino e arrogante dizer que só o Brasil tem 5 estrelas no peito e ponto. É necessário ter 5 estrelas em coragem, espírito de luta, brio, eficiência, profissionalismo, humildade, padrão de gestão, em matéria de integridade, de compliance, de transparência, de accountability. É necessário ter personalidade, ter alma, identidade.

É necessário ter atitude 5 estrelas dentro do campo, tomando a iniciativa do jogo (foram inacreditáveis 35% de posse de bola contra a Noruega que tomou sempre a iniciativa), honrando a amarelinha com seriedade, não jogando com displicência. É necessário ter padrão 5 estrelas, especialmente na fase mata-mata, ao bater um pênalti e ao concluir o único lance cara a cara com o goleiro.

Isso se chama seriedade, que caracterizou nosso algoz Haaland –teve duas bolas e implacáveis 100% de aproveitamento. Como diz Muricy Ramalho: “A bola pune“.

É vital ter padrão 5 estrelas no momento de convocar, escolhendo exclusivamente aqueles que merecem estar ali por serem de fato os melhores, em totais condições físicas, não permitindo que outras influências incidam. Na hora de fazer substituições, pensar no impacto sobre o esquema de jogo e sobre o time.

Os jogadores precisam amar o país e saber que é um privilégio estar ali, como fizeram os heróis de Cabo Verde, do México, de Costa do Marfim, de Marrocos. Deram seu sangue e saíram de campo como vitoriosos morais amealhando a simpatia e o apoio dos torcedores de muitos países do mundo.

Mas a cereja do bolo no pior sentido foi a provocação truculenta de Neymar ao goleiro norueguês, herói da classificação. Vale lembrar: naquela altura o Brasil estava eliminado, pois a derrota era irreversível.

Do outro lado do campo estava Haaland, que em momento algum tripudiou ou desrespeitou o Brasil. Pelo contrário: declarou sempre sua admiração por nossa seleção e não demonstrou soberba nem antes, nem durante nem depois de sua atuação de gala que o colocou na posição de artilheiro da Copa, ao lado de Messi e Mbappé.

Não se pode dizer o mesmo de Neymar, que deveria aprender regras de elegância e civilidade com o artilheiro escandinavo. Na vida, é necessário saber perder e saber ganhar. Ao final do jogo, Haaland mostrou saber ganhar.

Neymar, lamentavelmente, mostrou não saber perder, repetindo o padrão do triste comportamento que teve em relação ao filho de Robinho, quando o agrediu depois de ser por ele driblado num treino do Santos. Triste epílogo da Copa de 2026 para a seleção brasileira de futebol. Para construir uma nova realidade para 2030, o trabalho de profunda reformulação, sem medo, deve começar hoje.

Roberto Livianu, 57 anos, é procurador de Justiça, atuando na área criminal, e doutor em direito pela USP. Idealizou e preside o Instituto Não Aceito Corrupção. Integra a bancada do Linha Direta com a Justiça, da Rádio Bandeirantes, e a Academia Paulista de Letras Jurídicas, integra o Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça do MPSP, eleito por seus pares. É articulista da Rádio Justiça, do STF, do O Globo e da Folha de S. Paulo. Escreve para o Poder360 semanalmente às terças-feiras.


Leia mais no texto original: (https://www.poder360.com.br/opiniao/ganhamos-o-hexa/)

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