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O que vai além do cronômetro? A Copa do Mundo e o verdadeiro valor do tempo de tela – por Ana Bia Medeiros

Quando o assunto é infância e tecnologia, a conversa quase sempre cai no mesmo clichê: “Quanto tempo meu filho pode passar em frente às telas?” Mas, como educadora, provoco você a mudar o foco. E se a pergunta mais importante for: “O que as crianças estão vivenciando e com quem estão compartilhando esse tempo?”

A Copa do Mundo, que segue agitando as nossas semanas, é o cenário perfeito para essa reflexão. Estamos no meio de um dos maiores fenômenos de mobilização coletiva do planeta. Enquanto as seleções disputam em campo, milhões de pessoas torcem, vibram, criam expectativas e compartilham emoções na sala de casa. E as crianças, claro, estão completamente imersas nesse movimento.

Assistir a uma partida decisiva ao lado da família é o oposto do consumo passivo e isolado de vídeos aleatórios no feed das redes sociais. Há contexto, grito de gol, abraço na sala, frustração e alegria. Existe, acima de tudo, pertencimento.

Quando uma criança acompanha um jogo de forma ativa e mediada pelos pais, ela não está apenas olhando para uma tela, mas sim desenvolvendo competências essenciais para a vida. E, nesse processo, ela exercita a compreensão de regras e combinados da arbitragem, amplia sua empatia e repertório cultural ao notar um mundo cheio de sotaques e bandeiras diferentes, e aprende sobre regulação emocional ao lidar com a linha tênue entre a derrota e a vitória, tudo isso enquanto expande sua linguagem e socialização nas conversas de casa.

Isso não significa que toda exposição às telas seja automaticamente benéfica. O desenvolvimento infantil continua dependendo de experiências que nenhuma tecnologia pode substituir: brincar livremente, explorar o ambiente, movimentar o corpo, conviver com outras pessoas e interagir com o mundo real. A questão, portanto, não é colocar as telas como vilãs ou heroínas, mas compreender que diferentes experiências digitais produzem efeitos distintos. Há uma diferença importante entre um conteúdo que estimula conversas, curiosidade e participação ativa e outro consumido de forma passiva, apenas para preencher o tempo.

As evidências científicas caminham nessa direção. Uma revisão publicada na revista científica JAMA Pediatrics mostra que a qualidade das interações durante o uso das mídias digitais exerce maior influência sobre o desenvolvimento infantil do que o tempo de exposição isoladamente. Quando adultos participam da experiência, fazem perguntas, contextualizam o conteúdo e incentivam a criança a relacioná-lo com situações do cotidiano — prática conhecida como co-viewing — o ambiente digital se torna mais rico para o desenvolvimento, o pensamento crítico e a aprendizagem.

Talvez o desafio das famílias hoje não seja apenas contar quantas horas as crianças passam diante das telas, mas perguntar o que acontece durante esse tempo. Quando existe intenção, diálogo e participação dos adultos, temas que naturalmente despertam o interesse infantil — como a Copa do Mundo — podem deixar de ser apenas entretenimento e se transformar em oportunidades de descoberta, criatividade e construção de conhecimento.

Afinal, mais do que controlar o tempo de tela, educar para o uso consciente da tecnologia é preparar as crianças para viver em um mundo cada vez mais digital.


*Ana Bia é especialista em educação infantil e inclusiva e desenvolvimento de experiências educacionais para crianças. Lidera a frente pedagógica da Kiddle Pass, atuando na construção da curadoria educacional, metodologias de aprendizagem ativa e experiências que unem tecnologia, criatividade e desenvolvimento infantil. É uma das principais vozes da empresa em temas relacionados à educação do futuro, infância, inclusão, aprendizagem e uso saudável das telas. 

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