A polêmica na França com acusações de insinuações antissemitas no confronto entre Jean-Luc Mélenchon e Raphaël Glucksmann, não é um deslize isolado. Ela expressa uma tensão que atravessa as esquerdas no mundo inteiro…
De um lado, a La France Insoumise, cuja prioridade continua sendo a crítica ao “Ocidente”, à OTAN e à ordem liberal. De outro, a esquerda social-democrata — representada pelo Partido Socialista e por Glucksmann — que coloca no centro a defesa inequívoca da democracia liberal, o combate frontal ao antissemitismo e o apoio à Ucrânia como questão de direito internacional.
A crise, repito, é estratégica da esquerda.
Essa fratura vem da Guerra Fria. Parte da esquerda relativizou ditaduras classificadas como “de esquerda”. Após a queda do socialismo soviético, alguns desses regimes permaneceram praticamente imutáveis e hoje enfrentam crises profundas que parecem possivelmente terminais.
Mas há algo ainda mais grave: o mundo mudou. Já não vivemos sob o paradigma do capitalismo industrial do século XX. Estamos numa sociedade digital, atravessada por plataformas, inteligência artificial e novas formas de trabalho e poder. A esquerda que continua presa ao anti-imperialismo binário do passado corre o risco de se tornar historicamente irrelevante.
Não se trata apenas de geopolítica. Trata-se de compreender o século XXI.
Se a esquerda não atualizar sua leitura do mundo e não afirmar sem ambiguidades democracia, pluralismo e direitos universais, poderá perder não apenas a disputa eleitoral — mas o próprio e próximo futuro.
E isto é uma dura realidade brasileira.











