Home / Política / O Brasil precisa melhorar sua política. E muito! – por Paulo Roberto Guedes

O Brasil precisa melhorar sua política. E muito! – por Paulo Roberto Guedes

Tenho escrito, nestes últimos dois ou três anos, diversos artigos que tratam da necessidade, especificamente aqui no Brasil, de se alterar a forma pela qual se faz política.

Quero acreditar, inclusive, que nossas classes dirigentes, pressionadas pela população, cada vez mais vigilante e mobilizada, trabalharão na busca de soluções aos impasses e conflitos existentes.

Não se trata, evidentemente, de uma esperança baseada nos contos de fadas nos quais ‘tudo acaba bem’. A esperança expressada e as expectativas de melhoras comentadas estão baseadas em possibilidades reais e disponíveis e de acordo com as circunstâncias que se apresentam. E mais do que tudo, são esperanças que se alicerçam na presunção de que a construção de algo bom é o mais provável resultado de um trabalho sério e de uma postura e um comportamento correto, honesto, digno e justo daqueles que o realizam. Dessa forma, sempre é possível, quase uma certeza, propor e realizar melhorias em tudo o que ‘não está bom’.

Portanto, ao falar em trabalho sério, refiro-me ao esforço que todo ser humano, respeitando o direito dos outros, tem de fazer para atingir seus objetivos e realizar sonhos e desejos. E que, quando bem executado, além de gerar satisfação pessoal, crescimento profissional e aumento da autoestima, ainda contribui direta ou indiretamente para o bem da sociedade.

Lamentavelmente, nos dias de hoje, com muitos problemas que já nos atormentam a algumas dezenas de anos, e outros novos, a conclusão reinante e comum é a de que o Brasil nunca esteve “tão ruim” como agora. Principalmente neste momento pré-eleitoral, em que os ‘candidatos’ e a mídia ‘especializada’, para parecerem entendidos e conscientes de seus deveres, divulgam ‘verdades’ nas quais tudo que diz respeito ao Brasil está piorando.

Mas é fundamental fazer uma reflexão a respeito, posto que, além de haver melhoras significativas acontecendo, lamentavelmente ignoradas (1) por motivos de marketing político, sempre foi muito mais fácil fazer críticas aos erros cometidos do que enaltecer os acertos realizados.

Sou uma pessoa esperançosa por natureza, mas, às vezes, muito cética em relação ao ser humano e ao futuro de todo o mundo. São evidentes os problemas geoeconômicos e geopolíticos do momento, dos quais vale destacar alguns que reputo dos mais importantes: o ‘desprestígio’ da Democracia, a tendência ao autoritarismo, o avanço do populismo da extrema direita, o ‘silêncio’ da extrema esquerda, o terrorismo e as guerras, em todas as suas formas, o desastre ambiental e as pandemias, e o aumento da concentração de renda, com consequente aumento das desigualdades (2).

Especificamente no caso brasileiro, além desses citados no parágrafo anterior, posto que o País alcançou posição de destaque no cenário internacional e passou a ser muito mais afetado pelo que acontece em todo o mundo, vale destacar, ainda, a perda do poder político das classes mais pobres (3) como consequência direta do aumento das desigualdades, social, econômica, de gênero, raça e cor. Com resultados danosos para toda a sociedade brasileira, esse é um resultado que tem caracterizado o País, mais notadamente, nos últimos 20 anos.

Em artigo publicado no Estadão dia 25 pp (“Riqueza é poder”), escreveu o jornalista e presidente do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, Jorge J. Okubaro: “A fragilidade econômica das camadas mais pobres é expressa numa deficiência na sua representação política”. Nada mais verdadeiro. E perigoso!

Para piorar, o caso “Master”, aqui no Brasil, além de tornar transparente um comportamento antigo de nossas classes mais poderosas, trouxe implicações negativas significativas, posto que criaram dificuldades ainda maiores para que se discutissem, como de fato precisam ser discutidas, as propostas e as medidas que buscassem atenuar os problemas da Nação. Patrocinado pela maior parte da imprensa, como já dizia o sociólogo Domenico De Masi (4), discute-se Vorcaro, ao invés de se discutir novas políticas industriais, medidas para aumento da produtividade, de melhoria do poder aquisitivo da população, de melhoria da educação e da saúde, por exemplo.

Executivo, legislativo e justiça brasileiras, diretamente envolvidos nesses casos ‘de polícia’, assim como toda a sociedade, deixam de “trabalhar” no que é fundamental para se dedicarem à resolução de problemas ligados exclusivamente aos seus próprios interesses. Todos precisam fugir da justiça.  

O motivo desta ‘peroração’ e deste texto, e mesmo que superficialmente, é tentar entender o que ocorre no Brasil e onde buscar soluções, considerando que a situação em nosso País, mesmo não sendo ‘assustadora’, segundo meu entendimento, merece sérios cuidados.

Já falei e escrevi muito sobre algumas das diversas dificuldades pelas quais passava e passa nosso País, mas sempre, como já salientado, finalizando com uma mensagem de esperança, posto que acreditava existir, naquele momento, base sólida para o correto encaminhamento das soluções que se faziam necessárias. E havia tempo!

Mas infelizmente, o que se percebe atualmente de forma mais concreta, é que as disputas, afinal, são pelo poder. Não para que, a partir dele se busquem melhores soluções para os problemas da sociedade brasileira, mas o poder para continuarem a fazer o que querem, dificultando tudo ainda mais, pois se as soluções estão na convergência de objetivos, que por si só exigem negociação e entendimento, isto está longe de acontecer, considerando as circunstâncias políticas atuais, dicotômicas e polarizadas.

Mesmo considerando que o Superior Tribunal de Justiça esteja passando pela maior crise de sua história, mas infeliz e lamentavelmente, também com ‘culpa no cartório’ (5), eu não tenho medo de afirmar que o maior problema brasileiro está em nosso Legislativo, posto que atua bastante distante das necessidades e dos problemas do povo brasileiro (6). Aliás, pelo contrário!

Mas não podemos nos iludir, posto que enquanto os três poderes brigam entre si, com acusações e ameaças, considerando que disputam “o direito de determinar qual, quando, quem, como se decide uma demanda social, um conflito”, constata-se que “paradoxalmente não se matam. Reforçam-se” (7).   

E se o equacionamento das soluções exigidas somente poderá ocorrer quando praticarmos Política com P maiúsculo, o final de nossos problemas ainda está muito distante. O triste, nisso tudo, é o quanto essa situação perdura e é ‘sustentada’ por aqueles que se apoderaram do Estado.

Volto a repetir, apesar do visível agravamento de uma das maiores crises já ocorridas no Brasil, nossas classes dirigentes, principalmente a política, ainda não se deram conta e continuam ignorando a realidade e os problemas do País. Seja por ignorância, má fé, conveniência ou burrice.

A constatação de que a grande maioria de nossos representantes não está à altura das necessidades que se impõem neste momento, apenas nos deixa mais pessimistas. Eles, se sabem, não querem fazer o que precisa ser feito. “O Brasil é um País que tem medo de ir ao dentista. Está ficando banguela” foi o título de um texto que publiquei no dia 06/06/17. Como se vê, não é assunto novo.  

Enquanto isso, a grande maioria da população brasileira, apesar de algumas variáveis econômicas favoráveis (crescimento da economia, queda significativa no desemprego e inflação sob controle, por exemplo), não tem mais tempo, tampouco paciência e responderá, de uma forma ou de outra, nas próximas eleições.

Como tenho defendido, é essencial que nosso Congresso, apoiado pelo Executivo e as principais lideranças empresariais, e sempre de acordo com as normas e procedimentos constitucionais, volte a funcionar orientado para o bem coletivo e do País. De forma séria, isenta e respeitando as regras e os mecanismos que protegem as instituições democráticas, as agendas de reformas precisam estar na ordem do dia. E nesse sentido será fundamental que se criem obstáculos para os assédios constantes dos líderes com ambições autoritárias, de esquerda ou de direita, posto que praticam um populismo que só admite resultados eleitorais quando ganham.

Não é possível antever o que acontecerá nas próximas eleições, considerando que há uma tendência, até mundial, de se votar “contra o sistema” e “fora da política”. Portanto, tanto poderemos eleger candidatos com ‘tendências’ ditatoriais, que acreditam resolver tudo na “porrada”, ou eleger candidatos histriônicos que queiram se aproximar de “extremos políticos” incompatíveis com o mundo que se quer. Entre esses dois extremos e as diversas outras opções, tudo será possível. Apesar de cético e não saber quais são as bases que me fazem acreditar nisso, minha esperança é a de que, pelo menos, mantenhamos a Democracia e o respeito à Constituição.


(1) O mais recente relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades mostrou avanços importantes em diversas áreas. Resultado do trabalho conjunto de diferentes organizações e entidades não governamentais, o relatório, com dados de 2025, mostrou melhoria em 71% dos indicadores avaliados (negritos meus). Entre esses indicadores estão insegurança alimentar, desnutrição infantil, porcentagem da população em situação de extrema pobreza, homicídios entre jovens e desmatamento. Em média, a vida melhorou em relação ao ano anterior (trecho do artigo “Riqueza é poder”, publicado no Estadão do último dia 25, pelo jornalista e presidente do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, Jorge J. Okubaro).

(2) Em outro importante indicador econômico e social, constatou-se uma piora. “Já muito elevada no Brasil, que por isso ocupa uma posição destacada entre os países socialmente mais desiguais do mundo, a concentração de renda se acentuou. Não foi muita coisa, mas aumentou”, destacou Jorge J. Okubaro, em artigo aqui já mencionado.

No relatório “Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia”, elaborado pela Oxfam Brasil, fica claro que “em 2023, a fatia formada pelo 1% mais rico da população brasileira concentrava 24,3% de toda a renda do País, bem mais do que a fatia de 20,4% que detinha em 2017. Há concentração também entre os mais ricos. Da fatia de 1% de renda mais alta, a parcela correspondente a 0,1% apropriou-se da maior parte dos ganhos no período. Essas mudanças ocorreram num quadro em que muitos outros indicadores sociais melhoraram” (artigo de Jorge J. Okubaro, aqui já mencionado).

(3) O estudo da Oxfam, aqui já citado, estabelece relações relevantes entre renda e poder político. É como se a concentração de renda se reproduzisse na concentração de poder. Não se trata, obviamente, de condenar o sistema representativo e o sistema eleitoral adotado pelo Brasil, que tem assegurado liberdades essenciais para os brasileiros. Mas é preciso conhecer adequadamente a relação entre renda e poder no Brasil.

(4) “Cerca de quinze pessoas que detêm o monopólio” da imprensa, os ‘oligarcas’ da mídia e da informação, todos os dias “se dirigem a milhões de italianos” e, “com seu monopólio, impõem temas, assuntos, opiniões e influenciam o pensamento”. E o mais interessante é que todos repetem as mesmas coisas e explicam tudo do mesmo jeito. Até as imagens são as mesmas. Na televisão, por exemplo, “a informação se camufla como se fosse de muitos para muitos, mas na realidade é de poucos para muitos”. Resultado: “o poder midiático é perigoso se estiver nas mãos de poucos oligarcas da informação culturalmente despreparados”. Sem dúvida, “alguns oligarcas da televisão têm um poder cultural de influência sem precedentes, quase sempre sem uma preparação cultural adequada”. Infelizmente, não é diferente aqui no Brasil (“Conversas sobre o futuro”, Domenico de Masi e Giulio Gambino, Sextante 2025).

(5) “Quando os defensores da democracia lhe viram as costas”. “A Suprema Corte do Brasil salvou a jovem democracia do país. Agora, está sufocando-a por meio da corrupção”. Artigo publicado na revista The Economist, dia 10 pp. “Quando Jair Bolsonaro planejou um golpe de Estado após perder a reeleição em 2022, foi o Supremo Tribunal Federal do Brasil que o responsabilizou. Diante das constantes ameaças, inclusive de Donald Trump, os ministros prosseguiram com serenidade no processo contra o ex-presidente populista, condenando-o a 27 anos de prisão em setembro de 2025. A maioria dos brasileiros comemorou a preservação de sua jovem democracia. Agora, com a aproximação das eleições gerais de 4 de outubro, os defensores da democracia se tornaram uma ameaça. O Supremo Tribunal Federal está no centro de um escândalo de corrupção sórdido e em constante expansão. No centro de tudo está o ministro Alexandre de Moraes, que supervisionou o processo contra Bolsonaro”.

(6) “No radar do Congresso, a mobilizar todos os partidos, está apenas a manutenção do orçamento secreto, seja qual for a conformação técnica que essa indecência venha a ter de tempos em tempos” e as discussões a respeito da eleição das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado, pois são essas as posições legislativas que se tornaram em eficazes “instrumentos de chantagem”.

(7) “A oligarquia dos poderes e a crise da democracia”. Joaquim Falcão, professor de Direito Constitucional e Conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. História Real, 2026.

Marcado:

Sign Up For Daily Newsletter

Stay updated with our weekly newsletter. Subscribe now to never miss an update!

[mc4wp_form]

Deixe um Comentário