O pacto entre Bolsonaro e a igreja evangélica começou em 2016, às margens do Rio Jordão, Israel, quando, embora se dizendo católico, foi batizado pelo pastor Everaldo Dias Pereira, então presidente nacional do partido PSC, ao qual ele pertencia juntamente com seus três filhos, Carlos vereador no Rio, Flávio, deputado estadual pelo mesmo estado e Eduardo, deputado federal por São Paulo.

Mais tarde, Everaldo foi preso pela Polícia Federal na operação Tris in Idem, que investigava corrupção e lavagem de dinheiro na Secretaria da Saúde do Rio de Janeiro durante a pandemia da Covid-19 na gestão do governador afastado Wilson Witzel, mas a relação com a igreja evangélica deu frutos, como explica a professora de Harvard Kennedy School, socióloga Elizabeth Mackenna, onde fui colher alguns dados esclarecedores sobre o paradoxo da participação política do brasileiro.
Segundo ela, a direita brasileira expandiu seu alcance por uma constelação de “Think Tanks” conservadoras, cada vez mais influentes, e redes de base online. Esses movimentos carecem de liderança formal ou de um programa ideológico coerente, orbitando e demonstrando uma lealdade quase religiosa a figuras como Bolsonaro. Eles fazem campanha o ano inteiro, produzem material para as redes sociais, dizem e fazem o que um candidato não pode ou não sabe fazer e recrutam ativistas que nunca antes se importaram com política. Suas figuras mais visíveis são pastores, cantores gospel e youtubers com milhões de seguidores, alguns dos quais venceram as eleições do último domingo com uma montanha de votos.
As antigas associações de classe que antes uniam os eleitores mais carentes das classes trabalhadoras mais à esquerda definharam. A filiação sindical caiu drasticamente nos últimos anos e Lula perdeu terreno significativo entre a classe média e os eleitores de baixa escolaridade. Isto se deve em parte pelo fato do seu partido, PT, ter abandonado a atuação e organização local, que tem que ser permanente e exaustiva, entrincheirando-se nas vitórias de Lula nos últimos 25 anos.
Há uma instituição que preencheu esse vácuo e agora alcança grande parte dos antigos apoiadores de Lula: a igreja evangélica. Os evangélicos passaram de 9% em 1991 para cerca de 30 milhões de eleitores em 2025. Em inúmeras regiões mais pobres do Brasil, as igrejas evangélicas são muito mais presentes do que qualquer partido ou movimento social. Essas redes religiosas são agora a base sólida da direita, com os fiéis seguindo a orientação política dos seus pastores, muitos deles envolvidos em atividades pouco republicanas.
Num sistema partidário frágil quanto o brasileiro, onde poucos eleitores se filiam ou se identificam com algum partido, que não tem nenhum conteúdo programático ou ideológico, quem organiza a comunidade acaba influenciando a política local.
Assim como ocorreu com a igreja católica os evangélicos passaram mais de uma década aliados ao PT. Uma série de fatores fizeram que a igreja evangélica mudasse de lado e, agora, teve participação decisiva para que mais brasileiros se identifiquem com a direita mais do que com qualquer outra ideologia. Os padrões de longo prazo de como os brasileiros em geral participam da vida pública deveriam preocupar mais os verdadeiros democratas. Ao longo da última geração, as organizações que existem para prestar contas a um pastor, alimentar a indignação online ou mobilizar-se em torno de uma figura excludente como Bolsonaro cresceram, enquanto as organizações da sociedade civil que deveriam prestar contas a seus membros-sindicatos e partidos de massa -minguaram. Enquanto mais pessoas não pertencerem a organizações e partidos que ajudem a governar, o cenário cívico brasileiro continuará sendo fértil para políticos autoritários de qualquer matiz ideológica.
Ney Figueiredo é consultor político, escritor, membro do Conselho do Instituto Assuntos Estratégicos (INEST) da UFRJ.












