Home / Opinião / O futuro das obras industriais e corporativas no Brasil – por Marcelo Abreu

O futuro das obras industriais e corporativas no Brasil – por Marcelo Abreu

As obras industriais e corporativas ocupam um lugar decisivo na construção civil brasileira. Em um país em que a construção representa cerca de 5% do PIB, esse segmento responde por aproximadamente 30% da atividade do setor, movimenta cerca de R$ 450 bilhões em investimentos e sustenta mais de 3 milhões de empregos diretos. São números que ajudam a dimensionar uma atividade que, muitas vezes, passa fora do radar do grande público (focado em obras residenciais e urbanas, pois estão à vista), mas tem papel central na expansão da economia e na geração de trabalho qualificado.

Quem acompanha o dia a dia desse mercado sabe que a obra industrial tem uma lógica própria. Ela exige cronogramas mais rígidos, acompanhamento constante e uma capacidade de coordenação muito superior à que se observa nos empreendimentos residenciais. O prazo, nesse caso, está diretamente ligado à operação do cliente, ao início da produção, ao fluxo de caixa e, em muitos casos, à viabilidade do próprio investimento.

Essa pressão sobre prazo e desempenho se reflete na estrutura das empresas. Em comparação com outros segmentos da construção, as obras industriais demandam um contingente maior de profissionais dedicados ao planejamento, à qualidade, à segurança e à gestão. Essa estrutura indireta pode representar até 40% do valor da obra. A interação entre as disciplinas civil, eletromecânica, terraplenagem, automação e instrumentação, que convivem no mesmo canteiro, tem uma dinâmica que exige uma sintonia fina através do macroplanejamento. Não por acaso, a segurança e a qualidade assumem outro patamar de exigência, tanto pelo risco envolvido quanto pelo padrão de cobrança dos próprios contratantes, em geral corporações com atuação global.

Isso explica por que o futuro das obras industriais e corporativas depende tanto da qualificação da mão de obra, de formar equipes com perfil técnico e disciplina operacional. Precisa de profissionais que entendam especificidades de montagem, logística, interfaces e produtividade. Precisa também de rotinas de capacitação mais aderentes à realidade dos canteiros.

Por isso que iniciativas como a parceria entre o Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) são tão importantes. A experiência de levar formação para dentro da obra, por meio de escolas em canteiros, mostra que é possível encurtar o tempo de adaptação do trabalhador e criar uma ponte entre formação e empregabilidade. Ao mesmo tempo, a pesquisa sobre percepção de valor do trabalhador, projeto de Valorização do Trabalhador da Construção, em andamento pela Comissão de Obras Industriais e Corporativas (COIC) do Sinduscon-MG, aponta para novos entendimentos: o que atrai, de fato, o profissional para esse segmento? O que o faz permanecer? O que ele enxerga como carreira, desenvolvimento e reconhecimento?

Responder a essas perguntas é fundamental, porque o setor também disputa talentos com outras atividades da economia. E, ao contrário do que ainda se imagina em alguns segmentos, salário não explica tudo. Jovens profissionais observam o ambiente de trabalho, a possibilidade de crescimento, a cultura da empresa e o grau de modernidade da atividade. Se a obra industrial quiser atrair novas gerações, precisará comunicar melhor seu valor e mostrar que ali existe tecnologia e trajetória profissional.

A tecnologia, aliás, já é parte dessa transformação. Ferramentas como BIM – Modelagem da Informação da Construção, inteligência artificial, planejamento digital, pré-fabricação e modularização tendem a elevar a produtividade e a reduzir desperdícios. O ganho está em projetar melhor e executar com mais precisão. Isso não elimina o fator humano. Ao contrário, exige pessoas ainda mais preparadas para interpretar dados, gerenciar processos e tomar decisões.

O mesmo vale para a agenda ESG – Meio Ambiente, Social e Governança, que deve já fazer parte da rotina de quem quer permanecer competitivo. A Comissão de Obras Industriais e Corporativas do Sinduscon-MG está trabalhando nisso através de seu projeto Guia Prático ESG, onde dá suporte às empresas na sua implantação. No nosso setor, isso significa reduzir resíduos, tratar o trabalhador como ativo estratégico e adotar práticas de gestão que tragam mais fluidez, menos retrabalho e mais responsabilidade ambiental. Vejo que essa combinação vai sustentar o crescimento do segmento nos próximos anos.
 

*Marcelo Abreu é vice-presidente de Obras Industriais e Corporativas do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG).

Marcado:

Sign Up For Daily Newsletter

Stay updated with our weekly newsletter. Subscribe now to never miss an update!

[mc4wp_form]

Deixe um Comentário