Home / Política / Porque uma política pública pode transformar uma vida, mas, quando essa transformação não é reconhecida, perde-se também a oportunidade de construir uma memória coletiva – por Ellen Martins

Porque uma política pública pode transformar uma vida, mas, quando essa transformação não é reconhecida, perde-se também a oportunidade de construir uma memória coletiva – por Ellen Martins

Dez anos depois, o que me move é o que ainda podemos transformar!

Há dez anos, cheguei a Brasília sem saber exatamente o que me esperava. Deixei para trás certezas, referências e uma história construída para enfrentar o desconhecido. Talvez o maior desafio pessoal e profissional da minha vida até então. Eu tinha medo. Mas vim.

O que encontrei aqui foi muito maior do que poderia imaginar. Brasília me proporcionou um salto gigantesco, não apenas na minha trajetória profissional, mas na maneira como passei a compreender o Brasil, suas desigualdades, suas contradições e, principalmente, sua extraordinária capacidade de transformação. Aprendi a olhar para as políticas públicas para além dos programas, dos números e dos discursos. Aprendi a enxergar as pessoas por trás dos indicadores. As famílias por trás das estatísticas. As histórias que raramente ocupam as manchetes, mas que representam algumas das maiores conquistas sociais deste país.

Vi de perto o poder de uma política pública na vida de quem, durante gerações, teve seus direitos negados. Famílias marcadas pela pobreza, pela exclusão e por uma herança histórica de escravidão e desigualdade. Vi filhos e netos de trabalhadores domésticos, de pessoas submetidas a condições degradantes de trabalho, conquistarem o direito de estudar, ingressar em universidades, construir carreiras e ocupar espaços que, durante muito tempo, estruturalmente, não foram pensados para elas.

E compreendi algo que hoje considero fundamental: não basta transformar a realidade. É preciso fazer com que as pessoas reconheçam que são protagonistas dessa transformação.

Foi também em Brasília que passei a compreender a dimensão de um dos maiores desafios da comunicação pública: a distância entre aquilo que o Estado realiza e aquilo que efetivamente chega à população. Quantas conquistas se perdem no silêncio? Quantas políticas públicas deixam de ser reconhecidas por aqueles que mais se beneficiam delas? Quantas pessoas deixam de se identificar com um projeto de transformação porque ninguém conseguiu contar, de maneira verdadeira e próxima, que elas também fazem parte dessa história?

As últimas eleições me fizeram refletir profundamente sobre isso. Não basta apenas apresentar resultados. Não basta divulgar investimentos, programas, indicadores ou números impressionantes. É preciso traduzir essas realizações em pertencimento. É preciso que uma mãe reconheça, na trajetória do filho que chegou à universidade, uma conquista que também é sua. Que um avô compreenda que a história de sua família mudou porque direitos foram ampliados. Que pessoas historicamente invisibilizadas percebam que não são apenas beneficiárias de políticas públicas, mas sujeitos de direitos e protagonistas de suas próprias conquistas.

A comunicação falha quando informa, mas não aproxima. Quando divulga, mas não representa. Quando alcança milhões de telas, mas não consegue tocar a vida de quem está do outro lado.

E talvez essa seja uma das maiores lições que levo desses dez anos. Hoje, olhando para trás, reconheço o quanto Brasília me transformou. Mas, olhando para a frente, percebo que tudo o que vivi, aprendi e construí aqui é, sobretudo, um alicerce para novos projetos, novas propostas, novos desafios e, principalmente, para uma nova maneira de exercer a profissão que escolhi.

Quero que os próximos anos da minha trajetória, seja em Brasília ou em qualquer outro lugar, sejam dedicados a uma comunicação que vá muito além da informação. Uma comunicação que investigue, questione, traduza, dê visibilidade e produza reconhecimento. Que tenha compromisso com os fatos, com os dados, com os resultados, mas também com as histórias humanas que dão sentido a cada conquista. Que ajude a recuperar a memória das transformações sociais, a fortalecer o sentimento de pertencimento e a mostrar que direitos não surgem por acaso: são resultados de escolhas, de políticas públicas bem desenhadas, de mobilização e de muitas lutas coletivas. Quero contribuir para que as pessoas compreendam não apenas o que mudou em suas vidas, mas por que mudou, como mudou e o quanto ainda é possível avançar.

Porque a comunicação que transforma não é aquela que simplesmente chega ao celular, aparece nas redes sociais ou alcança milhões de visualizações. É aquela que chega ao coração, desperta ou devolve a consciência e faz alguém reconhecer: eu também faço parte dessa história.

Dez anos depois, já não sou a mesma mulher que chegou com uma mala cheia de dúvidas e um futuro desconhecido. Hoje carrego experiências, aprendizados, conquistas e a convicção de que ainda há muito a fazer. Se há dez anos meu maior desafio foi ter coragem para mudar a minha própria história, quero que, daqui para a frente, meu compromisso seja usar tudo o que aprendi para ajudar a contar, reconhecer e transformar a história de muitas outras pessoas.

Porque comunicar não é apenas dar voz às mudanças. É fazer com que as pessoas se reconheçam nelas. E é isso que quero construir no futuro. E que ele seja breve!


Ellen Martins, jornalista, especializada em comunicação estratégica e diretora da Polidea Comunicação. Com mais de 25 anos de experiência, construiu sua trajetória na interface entre comunicação, políticas públicas, instituições e transformação social. Atuou por cinco anos no Ministério do Desenvolvimento Social e Cidadania, em Brasília, e reúne experiência em articulação institucional, desenvolvimento de parcerias estratégicas e projetos de impacto social e econômico, no âmbito de capacitação e empregabilidade nacional.

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