Home / Opinião / Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Ainda vamos chamar isso de normal? – por Fabiana de Holanda

Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Ainda vamos chamar isso de normal? – por Fabiana de Holanda

Começo este texto reafirmando algo que digo com convicção: tenho orgulho de ser mulher. Mil vezes escolheria ser mulher. Dito isso, também afirmo: ser mulher no mundo, e especialmente no Brasil, é um ato diário de coragem.

Passamos a vida tendo que provar dezenas, centenas de vezes, nossa competência, nosso valor, nossa capacidade. Disputamos espaço, cargos, reconhecimento e salário em uma competição que, na maioria esmagadora das vezes, é profundamente desigual. Somos julgadas pela aparência. Se não atendemos ao padrão, somos inviabilizadas. Se atendemos, somos desqualificadas por ele. Somos objetificadas no trabalho, nas relações e até na forma como nossa presença é interpretada.

Quando há assédio, e não se enganem, todas as mulheres já passaram por isso, geralmente só existem duas saídas: ignorar, fingindo não ter entendido, ou reagir denunciando e correr o risco de perder o emprego.

Quando uma mulher demonstra cansaço diante de jornadas que historicamente nunca couberam à maioria dos homens, carreira, casa e maternidade, ela é chamada de desequilibrada ou instável. Quando um homem está estressado, é simplesmente “excesso de trabalho”.

Certa vez, durante uma entrevista de emprego, me perguntaram se eu pretendia engravidar. Respondi que não, o que era verdade naquele momento. Dois anos depois, engravidei. Ouvi então que aquilo havia sido uma traição. Traição.

A pergunta que fica é simples e incômoda: de quem são filhos os homens que objetificam, humilham e desqualificam mulheres que hoje sustentam mais de 52% dos lares brasileiros?

Quando converso com alguns homens próximos sobre a violência alarmante contra a mulher, frequentemente ouço a resposta: “isso sempre existiu”. Como se isso tornasse o problema normal. Como se fosse parte inevitável da sociedade. Não é.

A violência sempre existiu, mas ela também se intensifica e se legitima quando discursos de ódio ganham espaço. Movimentos misóginos e criminosos, como redpill e incel, transformam frustração em ressentimento e culpam mulheres e minorias por seus fracassos. Pior: incentivam a violência como se fosse uma forma de sobrevivência de uma masculinidade frágil, quebrada e tóxica.

Falamos de quatro mulheres assassinadas todos os dias no Brasil. E os casos de violência psicológica, física, moral e patrimonial? Milhares. Todos os dias. Sem pausa. Quantas mulheres trabalham e criam seus filhos sozinhas? A maioria. Elas ficam. Elas enfrentam. Elas sustentam. Enquanto muitos homens simplesmente partem, como se os filhos não fossem também responsabilidade sua, nem o cuidado, nem o afeto, nem o respeito.

Há, claro, exceções. Homens que têm sua masculinidade bem resolvida. Que entendem que relacionamentos são espaço de crescimento, parceria e troca. Que enxergam mulheres como iguais. Mas, infelizmente, ainda são minoria.

A violência contra a mulher, e contra qualquer minoria, é doença social. É crime. É abuso. Combatê-la não é apenas pauta feminina.

É responsabilidade coletiva. Porque uma sociedade justa não se constrói com ódio, violência, misoginia ou a desumanização de qualquer pessoa.

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