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Trouxas de roupa sobre a cabeça – por Gaudêncio Torquato

Luís Gomes foi, ano a ano, incorporando formas de superar os períodos mais drásticos das secas. Usar a água para lavar roupa na beira das lagoas e dos açudes era o ganha pão de muita gente, não só na lavoura. Lembro-me, ainda muito criança, de ver todas as semanas as irmãs Marola e Augusta, filhas de Bebi, carregarem sobre cabeças imensas trouxas de roupa. E depois de dois a três dias, voltarem com as peças lavadas e engomadas. Minha mãe era freguesa das filhas de Bebi, a velha senhora negra, que fazia a melhor linguiça da região. Lembro de Bebi enchendo as tripas lavadas e secas com a melhor carne suína. Socava as pequenas lascas na tripa, que ganhava densidade.

Era o petisco preferido de políticos e viajantes que visitavam a serra de Luís Gomes. Suas pernas se dobravam em posição de Yoga, e seu largo vestido, de tecido barato, esparramava-se pelo chão; as longas bordas formavam um círculo, parecendo a figura da porta-bandeira dos desfiles de carnaval, com aqueles vestidos armados com arame. Pesquiso o tema e encontro o conceito – “crinolina” – que define aqueles trajes: “As crinolinas eram armações usadas sob as saias para lhes conferir volume, sem a necessidade do uso de inúmeras anáguas”.

Fecho o parêntesis com Bebi e volto às lavadeiras de roupa de beira de rio. O engenheiro agrônomo, escritor e professor, Benedito Vasconcelos Mendes, o magistral idealizador de O Museu do Sertão, a poucos quilômetros de Mossoró, em um acurado texto, descreve o hábito arraigado durante muito tempo em todo interior nordestino, de as mulheres lavarem roupas à beira de rios, lagoas e açudes.

No passeio pela memória, ele nos leva a Sobral (CE): Devido à qualidade e à escassez de água, além da falta de espaços adequados para lavar e estender roupas ao sol, a rouparia da maioria das famílias que habitavam as vilas e cidades da Região Norte do Estado do Ceará era lavada pelas tradicionais “lavadeiras de roupa”. Essas mulheres especializadas utilizavam as águas intermitentes de rios como o Acaraú, Curu e Coreaú, além de açudes e lagoas, para realizar suas atividades de lavagem, engomagem e passar o ferro quente em roupas de cama, mesa, banho e vestuário. A maioria dos poços artesianos na região possui água salobra, rica em sais, tornando-a imprópria para a lavagem, pois não produz muita espuma.

As roupas de vestir (calças, camisas, ternos de linho branco, uniformes escolares, cuecas, pijamas, lenços, vestidos, anáguas, combinações, blusas, saias, calcinhas, sutiãs), roupas de cama e mesa (redes de dormir, lençóis, colchas, toalhas de mesa, panos de prato, guardanapos) e roupas de banho (toalhas de banho, toalhas de rosto) eram geralmente lavadas fora de casa, uma vez por semana (…). Em Sobral, nas décadas de 1960 e 1970, era comum ver lavadeiras/engomadeiras levando na cabeça grandes trouxas de roupa para lavar nas águas do rio Acaraú. Cada lavadeira tinha um local preferido à beira d’água, onde esfregava o sabão e batia as roupas com um bastão de madeira, facilitando a remoção da sujeira. As donas de casa recomendavam que as lavadeiras não usassem o porrete de madeira nas peças confeccionadas com tecidos finos, para não danificá-las. (…) O sabão utilizado era o sabão em barra (sólido), podendo ser caseiro (sabão preto) ou industrial. As roupas, especialmente as brancas, eram ensaboadas e colocadas para quarar ao sol, estendidas na areia do leito seco do rio Acaraú. (…) Com as roupas lavadas e secas, formava-se a trouxa, que era levada sobre a “tábua de bater roupa” para a casa da lavadeira, onde eram engomadas. O processo de engomagem consistia em passar sobre as peças de tecido de algodão ou linho um pano embebido em uma mistura de goma de mandioca e água fervente. Após a engomagem, utilizava-se o “ferro a carvão” quente. Os tecidos de algodão e linho podiam ser passados com ferro bem quente, enquanto a seda exigia um ferro menos aquecido. Tecido de seda não era engomado, apenas passado.

(. Reprodução do texto digital “As Lavadeiras de Roupa do Rio Acaraú”, que o autor, Benedito Vasconcelos Mendes, meu colega na Academia Norte-rio-grandense de Letras, compartilhou conosco. ]Benedito foi professor titular e diretor da antiga Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), hoje Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA). Publicou os livros Alternativas Tecnológicas para a Agropecuária do Semi-Árido (SP: Nobel, 1985); Plantas e Animais para o Nordeste (RJ: Globo Rural, 1987); e Biodiversidade e Desenvolvimento sustentável do Semi-Árido (Fortaleza/CE: Semace, 1997), entre outras.

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