Bolsonaro fez duas indicações que poderão mudar os rumos políticos do país por décadas: no final de 2021, indicou Tarcísio Gomes de Freitas para concorrer ao governo de São Paulo; e, em dezembro de 2025, chancelou o nome de Flávio Bolsonaro para enfrentar Lula na corrida ao Palácio do Planalto.
Para avaliar o acerto dessas indicações, é preciso voltar ao momento em que ocorreram. Tanto Tarcísio quanto Flávio eram vistos como azarões. Nada indicava, à primeira vista, que teriam êxito em desafios dessa dimensão. As decisões parecem ter sido tomadas muito mais por intuição política do que por avaliações técnicas tradicionais.
Tarcísio era ministro da Infraestrutura, visto como “estrangeiro”, carioca e desconhecido por mais de 50% da população paulista e, em alguns levantamentos, por larga maioria. Era, para o eleitorado do estado, um quase ninguém. Ao ser lançado, as pesquisas indicavam cerca de 5% das intenções de voto. Precisaria partir do quase anonimato e subir uma ladeira íngreme até o Palácio dos Bandeirantes.
Hoje, no último ano de governo, registra avaliação positiva de 66,7%. Nas simulações com diferentes adversários, aparece como favorito à reeleição. Diante desse desempenho expressivo, setores mais ao centro, interessados em se afastar do domínio bolsonarista, passaram a insistir para que o governador concorresse à Presidência.
A fidelidade de Tarcísio
Ele teria, segundo esses grupos, enorme chance de vitória. Apostavam, possivelmente, na velha regra não escrita da política: a cria costuma se voltar contra o criador. Até nisso Bolsonaro acertou. Tarcísio tem demonstrado fidelidade política ao seu padrinho, afirmando reiteradamente que não teria chegado onde chegou sem o apoio do ex-presidente. Esse comportamento é raro. A história política está repleta de apadrinhados que, ao conquistar poder próprio, se distanciam de quem lhes abriu as portas.
Maquiavel já advertia que a gratidão é uma virtude instável na política, pois os homens tendem a se afastar de quem os elevou assim que conquistam poder próprio. A fidelidade, nesse ambiente, não é regra, mas exceção. Por isso, quando um líder projetado preserva lealdade ao seu padrinho político, o gesto deixa de ser trivial e passa a ter significado estratégico.
Crias que se voltaram contra o criador
Em São Paulo, episódios como os de Montoro e Quércia, Quércia e Fleury, ou, mais tarde, Alckmin e Doria, ilustram esse padrão de autonomização. O mesmo se observou em outros níveis, como nas relações entre Maluf e Pitta ou entre Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, nas quais o herdeiro político construiu trajetória própria e se afastou do mentor inicial.
A trajetória do filho “zero um” de Bolsonaro guarda semelhanças com a de Tarcísio. Quando começaram as primeiras conversas, no final de 2025, sua eventual candidatura era tratada com ironia por adversários e até por setores conservadores. Muitos julgavam que serviria apenas para preencher um espaço político e preservar a influência da família do ex-presidente.
Flávio subindo nas pesquisas
Com Bolsonaro inelegível, não foram poucos os que decretaram o fim de sua força política. O curioso é que muitos dos que desdenhavam dessa influência, nos bastidores, desejavam que ele indicasse um nome alinhado aos seus próprios interesses. Queriam os votos, mas sem a presença política do líder.
Essa resistência inicial foi se dissipando à medida que Flávio avançou nas pesquisas. Ninguém pode garantir vitória antecipada. A política demonstra, repetidas vezes, que mudanças bruscas podem ocorrer de um momento para outro. Ainda assim, mantida a trajetória ascendente de sua pré-candidatura, suas chances se mostram hoje bastante expressivas.
Bolsonaro já errou
Bolsonaro errou em diversas indicações durante o governo, fato que ele próprio já reconheceu. Houve escolhas problemáticas em áreas sensíveis, como Educação e Saúde, além do episódio com Sérgio Moro, que inicialmente pareceu um acerto relevante, mas terminou em ruptura ruidosa e desgaste político.
Talvez a inexperiência administrativa tenha contribuído para esses equívocos. Mais experiente, nas indicações de Tarcísio e de Flávio, mostrou-se cirúrgico. Pelo menos até aqui. O futuro, como sempre na política, dirá se a intuição superou, mais uma vez, a técnica.
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