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Olho por olho… e o mundo acabará cego – por Wagner Belmonte

Em tempos de polarização extrema, o humanismo parece ter se tornado uma virtude em extinção. A política brasileira, que deveria ser um espaço de disputa de ideias, transformou-se em arena de desumanização.

Nesse ambiente tóxico, a dor do outro passou a ser celebrada como troféu ideológico. Quando a esposa do presidente Lula, Marisa Letícia, enfrentou um câncer, houve quem vibrasse, como, pasmem, se a doença pudesse ser instrumento de disputa política. Quando o helicóptero com o filho do então governador Geraldo Alckmin caiu, também houve adversários sectários comemorando a tragédia. Outra tragédia. Desrespeitar a dor da perda de um filho…

A política, nesses momentos, parecia ter perdido qualquer vestígio de civilização.

Agora, com o agravamento da saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro por causa de uma pneumonia, parte da esquerda reage com sarcasmo cruel, uma vingança descabida sob qualquer prisma. Circula nas redes a frase: “Tá com pneumonia? Eu não sou antibiótico”, frase que nasce de um contexto até compreensível, mas jamais justificável.

Durante a pandemia, Bolsonaro e seus aliados adotaram uma postura muitas vezes repugnante. Desdenharam da vacina, atacaram a ciência e minimizaram a gravidade da Covid-19. Desrespeitaram as vítimas que morriam sem oxigênio…

Houve negligência, desinformação e uma retórica que custou caro ao país. Ainda custa. Nada disso, porém, deveria autorizar a celebração da doença alheia, seja quem for e da tendencia política que representar.

O humanismo não é seletivo; ele existe justamente para conter nossos impulsos mais primários; momentos de selvageria casuísta. Se ele só vale para quem “pensamos” (sic!) como nós, então não é humanismo — é tribalismo.

A esquerda tinha diante de si uma oportunidade rara. Poderia demonstrar que ética pública não depende da identidade do adversário…Poderia responder com dignidade onde recebeu desprezo…. Também poderia mostrar que civilização é também autocontenção.Em vez disso, uma parcela escolheu o caminho mais fácil: a vingança moral.

Como lembrava Gandhi, “olho por olho e o mundo acabará cego”. Essa frase não é apenas uma advertência filosófica, mas um diagnóstico das sociedades que transformam ressentimento em política.

Ao ridicularizar a doença de Bolsonaro, seus críticos não o diminuem. Diminuem a si próprios e empobrecem o debate público, mais que isso, diminuem o coro daqueles que entendem que a ciência precisa ser preservada à margem de siglas hostis.

O humanismo exige que reconheçamos a dignidade até mesmo no adversário mais abjeto, como Bolsonaro, que, nem por isso, merece “provar o gosto amargo do veneno que ele prescreveu às 700 mil vítimas da pandemia no Brasil”. Se a ciência tivesse sido respeitada, algumas estimativas apontam que teríamos poupado 250 mil vidas abreviadas.

Afinal, quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.

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