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Quanto da pessoa que você é foi moldado por ambientes que nunca escolheu? – por Cristiane Sanchez

Durante décadas, acreditamos que os genes eram os grandes autores da nossa história. Neles estariam registradas as predisposições para doenças, as características físicas, parte da personalidade e até os limites do envelhecimento. A descoberta do DNA transformou a medicina e ampliou nossa compreensão sobre a vida. Ainda assim, uma pergunta permaneceu desconfortavelmente sem resposta: se os genes carregam tantas informações, por que pessoas com heranças genéticas semelhantes podem seguir trajetórias tão diferentes?

A dúvida se tornou ainda mais intrigante quando estudos envolvendo irmãos, gêmeos e grandes populações começaram a revelar um padrão difícil de ignorar. Algumas pessoas envelheciam com saúde apesar de carregarem predisposições genéticas importantes. Outras desenvolviam doenças precocemente sem apresentar histórico familiar relevante. Havia algo acontecendo entre os genes e o destino.

Foi nesse espaço que nasceu um dos conceitos mais fascinantes da ciência contemporânea: o expossoma. Proposto em 2005 pelo epidemiologista Christopher Wild, o termo descreve o conjunto de todas as exposições não genéticas que experimentamos ao longo da vida. Não apenas aquilo que comemos ou o quanto nos exercitamos, mas também a qualidade do ar que respiramos, o ruído das cidades, a luz que invade nossas noites, as relações que construímos, as oportunidades que recebemos, os medos que carregamos e os ambientes onde crescemos.

À primeira vista, a ideia parece simples. Na prática, ela muda profundamente a forma como entendemos a saúde. O corpo não é uma fortaleza isolada do mundo. Ele funciona mais como uma esponja biológica. Todos os dias absorve sinais, substâncias, experiências e estímulos que deixam marcas. Algumas desaparecem rapidamente. Outras permanecem registradas durante décadas nos sistemas imunológico, hormonal, cardiovascular e nervoso.

Essa percepção ganhou força recentemente quando pesquisadores analisaram dados de quase 500 mil participantes do UK Biobank, um dos maiores bancos de dados populacionais do mundo. O estudo mostrou que fatores ambientais e relacionados ao estilo de vida explicavam muito mais das diferenças observadas no risco de adoecimento e mortalidade do que fatores genéticos isolados. A descoberta não diminui a importância dos genes. Ela apenas revela que o roteiro biológico não está completamente escrito quando nascemos.

Mas o aspecto mais interessante dessa nova ciência não está nos números. Está nas histórias humanas que eles ajudam a explicar.

Imagine duas crianças nascidas no mesmo ano, com predisposições genéticas semelhantes. Uma cresce em um bairro arborizado, próximo a parques, em uma casa onde o sono é respeitado e as relações oferecem segurança emocional. A outra vive próxima a avenidas movimentadas, exposta diariamente à poluição, ao ruído constante, à insegurança urbana e ao estresse familiar. Décadas depois, seus exames podem contar histórias muito diferentes. O que mudou não foi o DNA. Foi a soma silenciosa das experiências incorporadas ao organismo ao longo da vida.

Essa é uma das descobertas mais profundas do expossoma. A doença raramente surge como um evento isolado. Muitas vezes ela representa o capítulo final de uma narrativa que começou muito antes. O organismo registra pequenas agressões, adaptações e sobrecargas que se acumulam lentamente. Quando o diagnóstico finalmente aparece, a impressão é de que tudo começou naquele momento. Na realidade, o corpo já vinha escrevendo essa história havia anos.

Essa perspectiva também transforma a maneira como enxergamos responsabilidade e escolha. Durante muito tempo, a saúde foi apresentada como consequência direta das decisões individuais. Comer melhor, praticar exercícios, dormir adequadamente. Tudo isso continua importante. Mas a ciência está mostrando que existe uma diferença entre fazer escolhas saudáveis e ter condições reais para fazê-las. O ambiente influencia aquilo que está disponível, acessível e possível.

Por isso o expossoma extrapola os limites da medicina. Ele conecta saúde, educação, urbanismo, economia e justiça social. Uma cidade mais arborizada deixa de ser apenas uma questão estética. Uma escola segura deixa de ser apenas uma questão educacional. Uma comunidade com vínculos sociais fortes deixa de ser apenas um ideal de convivência. Tudo isso passa a integrar os fatores que moldam a biologia humana.

Durante séculos pensamos que a identidade biológica era construída principalmente de dentro para fora. O expossoma sugere o contrário. Somos continuamente esculpidos pelo que nos cerca. O corpo registra os lugares onde vivemos, os afetos que recebemos, os medos que enfrentamos, as perdas que atravessamos e até as oportunidades que nunca tivemos.

Essa compreensão ajuda a explicar por que determinadas lembranças permanecem vivas mesmo quando não conseguimos descrevê-las em palavras. O organismo guarda registros que vão além da memória consciente. A infância vivida em um ambiente seguro produz efeitos diferentes da infância marcada pela insegurança. A presença constante da natureza, o convívio social, o excesso de ruído, a privação de sono e o estresse crônico não permanecem apenas na lembrança. Eles se tornam biologia.

Os genes continuam escrevendo o primeiro capítulo da história. Mas os capítulos seguintes são produzidos diariamente pelos ambientes que habitamos. A rua onde caminhamos, o quarto onde dormimos, as pessoas que nos cercam, o trabalho que realizamos e a qualidade das relações que cultivamos participam silenciosamente da construção da nossa saúde.

A grande força do conceito de expossoma está em nos lembrar que viver não é apenas passar pelo mundo. É permitir que o mundo passe por nós. Cada experiência deixa uma impressão. Cada ambiente contribui para uma versão futura de quem nos tornaremos.

Quando compreendemos isso, a saúde deixa de ser apenas uma questão de exames, diagnósticos ou predisposições genéticas. Ela passa a incluir uma pergunta muito mais ampla e profundamente humana: que marcas o mundo está deixando em você neste exato momento?

Referências para consulta

  1. Argentieri MA et al. Integrating the Environmental and Genetic Architectures of Aging and Mortality. Nature Medicine, 2025.
  2. University of Oxford. Lifestyle and Environmental Factors Affect Health and Ageing More Than Our Genes. 2025.
  3. The Lancet. The Human Exposome Project. 2025.
  4. JAMA. Beyond Genes: Human Exposome Project to Tackle External Drivers of Disease. 2025.
  5. Nature Medicine Editorial. Time for the Exposome to Shape Policy. 2025.
  6. Global Exposome Forum. Human Exposome Project Initiative.
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