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O voto da barriga – por Gaudêncio Torquato

Receoso de receber uma resposta atravessada, o repórter perguntou a Getúlio Vargas, à saída do Palácio do Catete: “Presidente, o que é preciso para vencer uma eleição?” Getúlio, com sua sabedoria sinuosa, respondeu: “Muita coisa. Boa memória, por exemplo. Política é como água no feijão. O que não presta flutua. O que é bom repousa no fundo.”

A metáfora é preciosa. Entre os elementos que repousam no fundo da memória popular, poucos têm tanta força quanto o feijão que alimenta a barriga. O eleitor pode até ouvir discursos, slogans, promessas grandiosas, anúncios de reformas, programas de governo e arengas ideológicas. Mas, quando se aproxima da urna, há uma pergunta silenciosa que pesa mais que muitos manifestos: melhorou ou piorou a minha vida?

O voto, muitas vezes, passa antes pela cozinha do que pela biblioteca. Passa pelo preço do arroz, do feijão, da carne, do gás, da conta de luz, do remédio, do transporte. Passa pelo bolso. E o bolso, quando vazio, não enche barriga. Daí a velha equação: BO-BA-CO-CA – BOlso, BArriga, COração e CAbeça. Primeiro, o eleitor sente no bolso; depois, sofre ou se alivia na barriga; em seguida, acomoda no coração uma sensação de gratidão ou ressentimento; por fim, a cabeça racionaliza a escolha.

A teoria do chamado “voto econômico” parte exatamente dessa percepção: o eleitor avalia governos também pelo desempenho da economia, pela renda, pela inflação, pelo emprego e pela sensação concreta de melhora ou piora de vida. Estudos sobre comportamento eleitoral no Brasil associam avaliação de governo, inflação, desemprego e renda à intenção de voto. 

Mas não se trata de reduzir o cidadão a um estômago ambulante. O eleitor não é apenas consumidor de feijão. É também pai, mãe, trabalhador, aposentado, jovem em busca de emprego, morador de bairro inseguro, usuário de posto de saúde, passageiro de ônibus, contribuinte desconfiado. A economia abre a porta do voto, mas outros sistemas entram pela mesma sala: segurança, saúde, educação, transporte, serviços públicos, dignidade urbana.

Ainda assim, é difícil negar: quando o bolso respira, a barriga se aquieta. E quando a barriga se aquieta, a política ganha tolerância. O governante que ajuda a melhorar a renda, ampliar o emprego, conter preços e aliviar a vida cotidiana cria uma reserva emocional no eleitor. Essa reserva pode não ser eterna, mas funciona como crédito político. O eleitor agradece com a memória.

O contrário também é verdadeiro. Quando o feijão fica caro, quando o salário evapora antes do fim do mês, quando o supermercado vira campo de batalha, o eleitor passa a olhar o governante com irritação. A propaganda perde brilho. O palanque fica distante. A frase bonita murcha diante da panela vazia.

Por isso, em política, não basta falar ao coração nacional; é preciso falar ao prato do cidadão. Não basta prometer futuro radiante se o presente está indigesto. A urna costuma registrar a conta do mês. E o voto, embora secreto, carrega muitas vezes o cheiro da cozinha.

Getúlio tinha razão. Na política, como na água do feijão, o que não presta flutua. O que presta repousa no fundo. E, no fundo da alma popular, repousa uma verdade simples: bolso vazio não enche barriga.

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