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Por que a forma como você fala pesa mais do que sua entrega nas decisões do CEO – por Juliana Algodoal

Durante muito tempo, crescer na carreira parecia ser parte de uma equação relativamente simples: entregar resultados, bater metas, cumprir prazos. Esse raciocínio, embora confortável, já não explica o que de fato sustenta uma decisão de promoção nos níveis mais altos das organizações. Hoje, nos bastidores dessas decisões, há um fator menos difundido e ainda subestimado por muitos profissionais que pesa de forma decisiva: a forma como se fala e se comunica.

Você já reparou que profissionais tecnicamente excelentes, com histórico consistente de entrega, estacionam na carreira enquanto outros, com resultados semelhantes, avançam? A diferença, na maioria das vezes, não está no currículo, mas na clareza, na escuta e na capacidade de síntese demonstradas nas interações estratégicas. Isso acontece porque em um cenário corporativo marcado por agendas lotadas, excesso de reuniões e atenção cada vez mais escassa, a fala virou um filtro de confiança para os CEOs. Não por acaso, diferentes estudos de consultorias como a McKinsey mostram que, à medida que o profissional sobe na hierarquia, competências técnicas deixam de ser diferencial e habilidades de comunicação e influência passam a ser determinantes.

Então, para quem busca reconhecimento de executivos seniores, o primeiro ponto é mais básico e mais negligenciado do que se parece: pensar antes de falar. Ainda há muitos profissionais que respondem de forma reativa, falam a primeira coisa que pensam ou usam a conversa como espaço para organizar o raciocínio em voz alta. Em posições de liderança, isso não é lido como espontaneidade, mas como falta de preparo. Respostas longas, prolixas e pouco conectadas à pergunta costumam soar como insegurança ou incapacidade de priorizar. Em cargos mais altos, espera-se que a pessoa chegue à conversa com ideias organizadas, escolhas feitas e consciência do impacto do que diz.

Mas clareza não deve ser confundida com simplificação excessiva ou fala curta a qualquer custo. Clareza é saber o que dizer, para quem dizer e por que dizer. Quando essa habilidade aparece, ela sinaliza maturidade para lidar com complexidade, algo indispensável em posições de maior responsabilidade. Em ambientes de alta pressão e sobrecarga de informação, líderes valorizam cada vez mais quem consegue estruturar mensagens claras e direcionadas, reduzindo ruído e ambiguidade.

Outro equívoco comum é confundir escuta ativa com concordância automática. Profissionais que elogiam tudo o que o CEO diz ou que perguntam o tempo todo “para ter certeza de que estão fazendo exatamente o que ele quer” acreditam estar demonstrando alinhamento, mas frequentemente comunicam o oposto, a falta de autonomia de pensamento. CEOs tendem a confiar mais em quem escuta com atenção, compreende o contexto e devolve contribuições relevantes com ideias, estratégias ou ajustes de rota, do que em quem apenas executa com receio de errar.

Nesse mesmo movimento, a capacidade de síntese deixou de ser uma característica pessoal e passou a ser um indicador claro de prontidão para cargos mais altos. Quem consegue explicar algo complexo de forma simples demonstra domínio do assunto e respeito pelo tempo do outro. Quem se perde em justificativas, pausas preenchidas e desvios de foco transmite ruído, mesmo quando tem boas ideias. Não por acaso, a transição para posições executivas exige menos execução direta e mais comunicação estratégica e poder de influência.

Há ainda um ponto menos óbvio, mas fundamental a ser compreendido: comunicação não é um estilo fixo, é uma competência que precisa evoluir junto com o papel profissional. Muitos acreditam que se comunicam bem porque já fizeram cursos ou desenvolveram um formato que funcionou no passado. O problema é que, à medida que a posição muda, a expectativa sobre a fala também muda. Quem insiste no mesmo padrão acaba ficando desalinhado, mesmo sem perceber.

Quando alguém se preocupa excessivamente em “performar bem”, corre o risco de se desconectar da relação. E, em comunicação, vale uma regra simples, a de que se quem escuta não entende, o problema não é de quem escuta, é de quem fala.

Por isso, para um CEO, sinais claros de alguém pronto para dar o próximo passo incluem posicionamento coerente, compromisso com o que diz, capacidade de assumir riscos de forma responsável e leitura do momento da empresa. Tudo isso passa, inevitavelmente, pela fala.

Talvez, portanto, a pergunta mais relevante para quem quer avançar na carreira não seja “estou entregando bem?”, mas sim: “a forma como eu falo sustenta o papel que quero ocupar?”

Hoje, com cada vez mais ações automatizadas, a comunicação humana, clara, consciente e contextualizada, tornou-se um dos principais diferenciais de liderança. Desenvolvê-la não é vaidade nem detalhe. É estratégia de carreira.

E, muitas vezes, é isso que faz um CEO confiar ou não em você.

Sobre Juliana Algodoal

Considerada uma das maiores especialistas em Comunicação Corporativa do país, Juliana Algodoal é PhD em Análise do Discurso em Situação de Trabalho – Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem e fonoaudióloga pela PUC/SP e fundadora da empresa Linguagem Direta. Ao longo de 37 anos de carreira, Juliana já apoiou quase 11 mil profissionais tendo como foco nos últimos seis anos a alta liderança. Com o desenvolvimento de projetos que buscam aprimorar a interlocução no ambiente empresarial, já atuou para a BASF, Porto Seguro, Novartis, Pfizer, Aché, Itaú, Citibank, Unimed Nacional, Samsung, dentre outras. É coautora do livro Thought Leadership: muito além da influência e membro do conselho de administração da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, que também já presidiu.

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