Abrimos o guarda-roupa e, mesmo diante de tantas peças, temos a sensação de não ter nada para vestir. Abrimos a despensa e acreditamos que algo está faltando. Procuramos uma tesoura, uma caneta ou um carregador e, algum tempo depois, descobrimos que já tínhamos vários deles espalhados pela casa.
À primeira vista, pode parecer apenas uma questão de desorganização. Mas, quando olhamos por uma perspectiva psicanalítica, percebemos que essa repetição pode revelar algo mais profundo: a forma como cada pessoa se relaciona com a falta.
Vivemos em uma sociedade que constantemente associa o consumo à ideia de satisfação. Somos incentivados a acreditar que a próxima compra poderá trazer felicidade, praticidade, autoestima ou até uma sensação de completude. Porém, muitas vezes, aquilo que buscamos não está no objeto em si, mas na tentativa de preencher algo que pertence ao campo emocional.
Existe uma contradição interessante: quanto mais acumulamos objetos sem perceber seus reais significados e necessidades, mais difícil se torna enxergar aquilo que já possuímos. O excesso, que deveria representar abundância, muitas vezes produz justamente o oposto: uma constante sensação de falta.
Objetos se perdem entre tantos outros, roupas permanecem esquecidas por anos dentro do armário, algumas ainda com etiqueta, e novos itens são comprados porque aquilo que já existia deixou de ser percebido.
Nesse movimento, a compra deixa de ser apenas uma resposta a uma necessidade concreta e passa a funcionar como uma tentativa de aliviar algo interno. Um desconforto, uma angústia, uma frustração ou uma sensação de vazio que não pode ser preenchida por objetos.
Na clínica, percebemos que algumas pessoas encontram no ato de comprar uma forma momentânea de aliviar emoções difíceis ou recuperar uma sensação de controle. Mas esse alívio costuma ser passageiro. Depois de algum tempo, uma nova falta aparece e, com ela, a busca por uma nova compra.
É importante compreender que consumir faz parte da vida. Comprar também pode ser uma experiência de prazer e cuidado. A questão está em perceber quando o consumo deixa de responder a uma necessidade real e começa a ocupar o lugar de algo que precisa ser elaborado emocionalmente.
Muitas vezes, acreditamos que o problema está na falta de espaço e buscamos mais armários, caixas organizadoras e novos lugares para guardar objetos. Mas talvez o excesso não esteja apenas dentro da casa. Talvez esteja também na dificuldade de reconhecer, valorizar e se conectar com aquilo que já temos.
Organizar um ambiente não é apenas colocar objetos em seus lugares. É recuperar a capacidade de enxergar. E quando enxergamos melhor, também transformamos a forma como fazemos nossas escolhas.
Quando conseguimos reconhecer aquilo que já faz parte da nossa vida, percebemos que muitas das necessidades que sentimos eram criadas pela própria invisibildade causada pelo excesso.
Todo excesso pode esconder uma falta que precisa ser olhada com cuidado. Nem sempre aquilo que buscamos preencher está relacionado ao que está fora; muitas vezes, está relacionado ao que acontece dentro de nós.
Por isso, é importante desenvolver um olhar mais consciente para nossas escolhas e compreender o que estamos tentando suprir através de determinados comportamentos. Buscar ajuda pode ser um caminho importante para compreender nossas emoções, nossas necessidades e aquilo que realmente estamos tentando preencher.
Nem toda falta pode ser resolvida por meio de uma compra. Algumas faltas precisam ser escutadas, compreendidas e elaboradas.












