Não é raro que, diante de um relato de êxtase, transe ou experiência mística, a primeira pergunta que surge, dita em voz alta ou apenas pensada, seja: isso é uma graça espiritual ou é um sinal de que essa pessoa precisa de ajuda? A pergunta é legítima. É sinal de que quem a faz está levando a sério tanto a dimensão espiritual quanto a dimensão humana de quem vive essa experiência. Ao longo dos anos em que tenho estudado os dons e carismas, e mais especificamente os fenômenos místicos dentro da tradição católica e em diálogo com outras expressões religiosas, aprendi que essa pergunta não tem resposta simples, e muito menos serve para ser respondida à distância. Mas merece ser discutida com honestidade, sem reduzir a experiência espiritual a um problema, e sem transformar toda dificuldade emocional em fenômeno sobrenatural.
A tradição espiritual cristã sempre reconheceu que experiências como o êxtase e o transe fazem parte do vocabulário da vida mística. Santos e místicos, ao longo da história, relataram estados de profunda união com Deus que escapam à explicação puramente racional. É um campo legítimo de estudo teológico e espiritual, com critérios próprios de discernimento, que a própria Igreja foi desenvolvendo ao longo de séculos, justamente para não tratar como automático tudo aquilo que se apresenta como extraordinário. Ao mesmo tempo, a psicologia e a psiquiatria também têm seu vocabulário para descrever estados alterados de consciência, dissociação ou sofrimento psíquico intenso. É um campo de saber igualmente sério, com seus próprios instrumentos, formação técnica e responsabilidade clínica.
O erro, penso eu, está em imaginar que esses dois campos competem entre si, como se um precisasse desqualificar o outro. Não é bem assim. São linguagens diferentes, construídas para responder perguntas diferentes, e é por isso que nenhuma das duas, sozinha, deveria ser usada para explicar tudo.
Dentro da tradição espiritual existe algo que chamamos de discernimento: um processo cuidadoso, muitas vezes demorado, conduzido junto com um acompanhamento espiritual sério e, quando necessário, em diálogo com profissionais da saúde mental. Discernir não é decidir sozinho, de forma rápida, se algo é de Deus ou não é. É acolher a experiência da pessoa com respeito, sem pressa para rotular, e sem medo de buscar ajuda especializada quando ela é necessária. Isso significa, na prática, que um acompanhamento espiritual responsável nunca deve substituir um cuidado psicológico ou psiquiátrico quando este é necessário. E, da mesma forma, um cuidado clínico bem-feito não precisa negar a legitimidade da busca espiritual de uma pessoa. As duas coisas podem, e na minha experiência pastoral frequentemente devem, caminhar juntas.
Como padre, não é meu papel fazer diagnósticos clínicos, e não é essa a proposta deste texto. Minha responsabilidade, e a de qualquer pessoa que acompanha espiritualmente outra, é reconhecer os limites da própria função. Acolher com seriedade o relato de uma experiência espiritual, sem ridicularizá-la, e ao mesmo tempo ter humildade para orientar a busca por acompanhamento profissional quando surgem sinais de sofrimento que pedem outro tipo de cuidado. Essa humildade é parte do próprio discernimento espiritual bem-feito. Confundir zelo pastoral com competência clínica pode fazer mais mal do que bem.
Talvez o mais importante seja isto: tratar essas experiências com seriedade, a espiritual e a psicológica, é também uma forma de cuidar das pessoas. Não se trata de escolher um lado, mas de reconhecer que a vida humana é feita de corpo, mente e espírito, e que cada um desses aspectos merece ser olhado por quem tem preparo para isso. Quando esse cuidado é feito com respeito mútuo entre os campos, teológico e psicológico, todos ganham: a pessoa que vive a experiência, a comunidade que a acolhe, e o próprio diálogo entre fé e ciência, que precisa continuar sendo construído com paciência, escuta e, sobretudo, sem pressa de definir tudo antes da hora.

Renato Fernandez: graduado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), com licenciatura em Filosofia. Iniciou sua trajetória paroquial em 2013, dedicando-se com zelo à vida pastoral e à formação espiritual de suas comunidades. Atualmente, exerce o ministério como pároco na Paróquia Santa Joana d’Arc, na Diocese de Santo André (SP). Além de seu trabalho sacerdotal, também é autor do livro “Dons Carismáticos – A alma em êxtase”.












