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Era uma vez… – por Marli Gonçalves

Que saudades do Brasil colorido, com muitas opções competitivas, correndo feliz para as urnas. Lembra?  Em 1989, na primeira eleição presidencial direta depois da Constituição de 88, naquele ano, olha só, foram 22 candidatos no primeiro turno, alguns bem interessantes, e com os partidos definidos, sem a geleia de federações de hoje, com uns engolindo outros. Escolha dura.

Onde anda nosso país que agora parece mais uma laranja mal cortada, amarga? Era uma vez um país tropical divertido, saindo mal ou bem de um período violento e obscuro de 21 anos de ditadura militar, de um golpe que nos afastou das conquistas pessoais dos anos 60, nos martirizou nos anos 70, e se estendeu. O país que se arrumou todo até para suportar em 1985 a imposição indireta de um presidente após a derrota da campanha histórica “Diretas Já!”. Tínhamos a cara bonachona de Tancredo Neves, e logo a posse adiada, sua morte, e a unção de José Sarney, o vice, ao cargo.

Estranho que sempre e até hoje temos confusão. Nomes que despencam no nosso caminho, como o de Fernando Collor e seus marajás, que acabou levando a presidência do Brasil, depois sofrendo impeachment. E mais um vice, Itamar Franco, indo para o comando. Mais recentemente, apareceu Jair Bolsonaro, que depois de 28 anos no baixo clero como deputado, foi alçado a presidente em 2018, um período de dificuldades, da pandemia assassina, de negacionismo e ataques à imprensa e às liberdades individuais, e até de mais uma tentativa de golpe. Agora aparecem mais estranhos, este representante da familícia, Flávio Bolsonaro, e aventureiros como Renan Santos, Augusto Cury, e ex-governadores tentando, como Ronaldo Caiado e Zema.

Em 1994, foi a vez de Fernando Henrique Cardoso, uma espécie de herói do Plano Real, reeleito em 1998. Lula tentou em 88, 94 e 98, até se eleger e tomar posse em 2003. Reeleito em 2006, depois fez de Dilma Rousseff sua sucessora, reeleita, até sofrer impeachment e entregando a mais um vice, Michel Temer.

Eleito pela terceira vez em 2022, Lula continua aí na parada para um quarto mandato. Persistência louvável, no mínimo. Sempre vivemos ciclos bons e confusos se alternando, chegando ao hoje nas urnas com essas opções empasteladas, que duvido muitos saibam quem se juntou a quem.

Era mesmo uma vez, distante, aquele país tropical colorido e combativo que a essa altura já estaria pensando numa moda de verão para Ipanema, um topless, apitos, ganhar alguma Copa mais para a frente torcendo por uma seleção de craques sumidos.  Não, agora estamos nos desentendendo, divididos, tensos, tempos nublados, corrupção grassando, apavorados com retrocessos e repressão, perda de direitos, violência, El Niño e severos desequilíbrios ambientais, rupturas institucionais, descontroles digitais e avanços desgovernados – de poder e de inteligência artificial.

Era uma vez os bons tempos que vivemos. Vamos às urnas em prol de que um dia voltem.


MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, com passagem por alguns dos principais veículos, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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