Lula tem feito das tripas coração para diminuir sua rejeição entre os eleitores e pavimentar suas chances de reeleição. Segundo alguns analistas, sua reunião com os presidentes da Câmara e do Senado teve como objetivo destravar no Congresso pautas de forte apelo popular.
Entre os temas incluídos no acordo estão o fim da “taxa das blusinhas”, o andamento da proposta do fim da escala 6X1, a PEC da Segurança Pública e incentivos para o setor de data centers. Ufa, é difícil até pensar como tantos assuntos couberam nesse almoço com Lula, Hugo Motta, presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre, presidente do Senado.
Juntos para sempre
Essa correria toda teve razão de ser. Era preciso liberar as pautas prioritárias para votação antes que o calendário eleitoral esvaziasse o Congresso. Aproveitaram também o rega-bofe para reaproximar Executivo e Legislativo, que andavam de cara virada. Para selar a reconciliação, no final posaram para uma foto com Lula dizendo em tom jocoso que poderiam ficar “juntos para sempre”.
Algumas dessas medidas, de forte apelo popular, poderão custar caro ao país. Alguém vai ter de pagar a conta. E não adianta procurar por cima dos ombros, pois será o próprio povo brasileiro. Mas, olhando pela visão de Lula, foi um golaço! Em pleno período eleitoral, fazer cortesia com chapéu alheio poderá resultar em votos para ele.
Tem americano no samba
Entretanto, nem tudo são flores. Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, em seu discurso no Simpósio Econômico de Jackson Hole, deixou aberta a possibilidade de elevação dos juros caso a inflação não recue como o esperado. Essa possibilidade é ruim para o Brasil. Para Lula também poderá ser.

Ainda há esperança. Essa perspectiva vai de encontro às intenções de Donald Trump, que em seus pronunciamentos tem defendido cortes nas taxas de juros. Só o fato de o assunto vir à tona, todavia, já mexe com o mercado financeiro. Depois das declarações de Warsh, aumentaram as apostas em uma elevação dos juros americanos e o dólar subiu também no Brasil. Nem é preciso, portanto, que a decisão seja tomada para que os primeiros movimentos ocorram.
Viria chumbo grosso por aí
Se a alta se confirmar, as consequências para o Brasil não são nada animadoras. Com a alteração do fluxo global de capital, as possibilidades de manobra do Banco Central ficam mais limitadas. Parte dos investidores poderá retirar recursos dos mercados emergentes em busca de maior remuneração e mais segurança no mercado americano.

O dólar também tenderá a se valorizar com a saída de recursos e a maior procura pela moeda americana. Insumos importados ficam mais caros, pressionando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Se esse movimento ganhar força e persistir, o Banco Central terá menos espaço para continuar reduzindo a Selic. Poderá interromper os cortes e, num cenário mais grave, até voltar a elevar os juros.
A culpa cai no primeiro que aparece
Pior. A manutenção dos juros em nível elevado encarece o crédito, desestimula investimentos e contém o consumo. Se a inflação também avançar, o poder de compra da população será atingido.
Um cenário como esse poderá ser um balde de água fria nas pretensões de Lula à reeleição. Todo esse esforço de Lula para aprovar pautas de forte apelo popular talvez perca parte do efeito. A população sente no bolso e no carrinho de supermercado. E imediatamente aponta o dedo para o primeiro culpado que vê à sua frente, o governo de turno.
A oposição faria a festa
Ou será que o eleitor vai entender que as novas dificuldades econômicas foram provocadas também por decisões do presidente do Federal Reserve? Presidente de onde?! Sem contar que a oposição não poupará críticas ao governo. Bradará em alto e bom som que a incompetência da atual gestão é que prejudicou a vida dos brasileiros.
Talvez nada disso aconteça, mas serve para alertar que nenhum político pode dormir em berço esplêndido. O país dorme de um jeito e, por causa de decisões que estão totalmente fora de seu controle, acorda de outro. E nem vou falar aqui de um ingrediente importante, os escândalos. Essa é conversa para depois.
Haja criatividade e jogo de cintura para planejar uma campanha quando os ventos mudam de direção de uma hora para outra. Não deve ser fácil engolir acordos indigestos e ainda rezar para que os americanos não pisem na mangueirinha.
Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. Presidente Emérito da Academia Paulista de Educação. Escreveu 36 livros com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram @polito, pelo facebook.com/reinaldopolito ou pergunte no contatos@polito.com.br












