Uma obra corporativa pode parecer perfeita no dia da entrega. Mobiliário instalado, iluminação funcionando, salas prontas e acabamentos concluídos. Mas é quando centenas de pessoas começam a trabalhar naquele espaço que ele enfrenta seu teste mais importante: o uso real.
No mercado, não é incomum ouvir relatos de empresas que, pouco depois de ocupar um novo escritório, começam a perceber situações que não esperavam. Uma sala com acústica inadequada, uma área mais fria que outra, espaços de reunião que vivem lotados enquanto outros permanecem vazios ou ambientes de convivência que simplesmente não atraem as pessoas.
É justamente para evitar esse tipo de surpresa que uma obra não pode ser considerada concluída apenas porque a execução física terminou. A etapa final precisa incluir uma vistoria minuciosa do que foi executado antes da entrega, justamente para assegurar que projeto, instalações, acabamentos e funcionamento estejam de acordo com o padrão de qualidade estabelecido. Para nós, entregar não é apenas terminar a obra. É ter segurança sobre aquilo que está sendo colocado em operação.
Ainda assim, existe uma segunda dimensão que nenhuma empresa deveria ignorar: a forma como as pessoas efetivamente usam os espaços. Pesquisadores da Technical University of Denmark analisaram 116 estudos sobre avaliação pós-ocupação de escritórios. Esse tipo de avaliação observa justamente o desempenho do ambiente depois que ele entra em funcionamento, considerando aspectos como conforto térmico, acústica, iluminação e qualidade do ambiente interno.
Foi exatamente isso que aconteceu em um projeto recente. A empresa estudava ampliar sua área ocupada porque acreditava que o escritório já não atendia às necessidades da equipe. A análise mostrou um cenário diferente: havia ambientes subutilizados, excesso de posições fixas e pouca flexibilidade para acomodar diferentes formas de trabalho.
Outro estudo, baseado na avaliação de 3.552 trabalhadores, analisou 51 características dos ambientes de trabalho e mostrou que as prioridades variam conforme o perfil e a atividade profissional. Enquanto algumas funções valorizam mais as áreas comuns, outras atribuem maior importância aos espaços individuais.
Isso ajuda a explicar por que projetar um bom escritório exige mais do que seguir uma fórmula. Uma empresa pode imaginar que precisa de várias salas grandes de reunião e descobrir, com o uso, que a maioria dos encontros envolve três ou quatro pessoas. Pode criar uma ampla área de colaboração e perceber que as equipes preferem pequenos pontos de encontro distribuídos pelo escritório.
Não estamos falando necessariamente de falhas de projeto ou execução. Estamos falando de comportamento, cultura e operação, fatores que só se revelam completamente quando o escritório ganha vida. Por isso, acredito que existem dois momentos igualmente importantes: a verificação técnica antes da entrega e a observação do espaço depois da ocupação.
O primeiro garante qualidade. O segundo gera informação para que o ambiente continue acompanhando a empresa. E muitas vezes isso não exige uma nova obra. Mudanças de mobiliário, layout ou forma de utilização de determinados ambientes podem ser suficientes para adequar o espaço a comportamentos que só ficaram evidentes depois da mudança.
Aqui somos rigorosos com a primeira etapa porque acreditamos que qualidade não se negocia. E valorizamos a segunda porque nenhum escritório deveria ser tratado como algo estático. Uma obra bem entregue precisa estar pronta no dia da inauguração. Um bom espaço corporativo precisa continuar fazendo sentido muito depois dela.
*por Maria Angela Polo, CEO da We Are Group, empresa especializada na execução de ambientes corporativos e comerciais de alto padrão. Mais informações no site.












