A fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil para os Estados Unidos é mais do que um episódio constrangedor para um senador que acaba de disputar a Presidência da República. Expõe uma contradição fundamental: a de um político que reivindica autoridade para governar o País, mas cuja conduta suscita dúvidas sobre seu compromisso com as instituições. Quem pretende ocupar o mais alto cargo da República precisa demonstrar responsabilidade e disposição para prestar contas, sobretudo quando suas próprias ações estão sob escrutínio.
Não se trata de antecipar culpa nem de transformar uma investigação em condenação. O senador tem direito à presunção de inocência, à ampla defesa e ao questionamento de decisões judiciais pelos instrumentos previstos no ordenamento jurídico. Se considera decisões judiciais injustas ou abusivas, cabe-lhe contestá-las nas instâncias competentes. A fuga do País, nessas condições, apenas amplia as dúvidas que deveria esclarecer.
A gravidade da fuga na calada da noite aumenta porque Flávio Bolsonaro não é um cidadão sem responsabilidades públicas. É senador e acaba de se apresentar aos eleitores como alternativa para dirigir o Brasil. A Presidência exige mais do que capacidade de mobilização eleitoral ou habilidade para atacar adversários. Exige compromisso com a Constituição, respeito aos limites do poder e disposição para assumir as consequências dos próprios atos. A autoridade democrática não decorre da popularidade ou do sobrenome, mas da confiança que o comportamento de um representante público é capaz de inspirar.
Isso tampouco significa conceder às autoridades judiciais um cheque em branco. Decisões que restringem direitos devem ser fundamentadas, proporcionais e passíveis de contestação. O controle de eventuais abusos é parte essencial do Estado de Direito. Mas criticar um tribunal e recorrer de suas decisões são atitudes distintas de ignorar suas determinações. Preservar essa diferença é indispensável para evitar que disputas políticas se sobreponham às garantias constitucionais.
A oposição tem papel indispensável na democracia. Cabe-lhe fiscalizar o governo, confrontar propostas e oferecer alternativas. Não cabe a seus representantes transformar dificuldades judiciais em espetáculo de vitimização ou usar o conflito com as instituições como substituto para explicações objetivas. Se deseja continuar exercendo liderança política, Flávio Bolsonaro precisa esclarecer sua conduta e demonstrar que está disposto a assumir as responsabilidades inerentes à função pública.
O Brasil já pagou caro pelo personalismo que confunde interesses particulares com os do País. Não precisa de mais um líder que reivindique poder sem demonstrar a responsabilidade que o acompanha. A presunção de inocência deve ser preservada, mas não elimina a obrigação de prestar esclarecimentos. Para quem pretende governar a República, o respeito às instituições não é um detalhe retórico: é uma condição elementar de credibilidade.












