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A vida que deixamos para quando sobrar tempo – por Cristiane Sanchez

A consulta médica fica para o próximo mês. O encontro com as amigas é adiado novamente. A caminhada começa na segunda-feira, o livro permanece na cabeceira e aquela viagem, desejada há anos, continua sem data. Entre compromissos profissionais, responsabilidades familiares e problemas que precisam ser resolvidos, aprendemos a repetir que não temos tempo. E, quando finalmente encontramos alguns minutos livres, muitas vezes estamos cansadas demais para aproveitá-los.

A sensação de estar permanentemente ocupado tornou-se tão comum que quase deixou de causar estranhamento. Respondemos mensagens enquanto almoçamos, pensamos no trabalho durante o descanso e planejamos o dia seguinte antes de terminar o atual. Aos poucos, atividades que deveriam fazer parte da vida passam a depender de uma condição difícil de alcançar: a ausência de obrigações.

A escritora e pesquisadora do uso do tempo Laura Vanderkam apresenta uma perspectiva interessante no livro 168 Hours: You Have More Time Than You Think (Você tem mais tempo do que pensa). Em vez de observarmos a rotina apenas pelas 24 horas de cada dia, ela propõe considerar as 168 horas que compõem uma semana. Essa mudança amplia nosso campo de visão e permite perceber oportunidades que uma agenda diária aparentemente lotada pode esconder.

A proposta parte de uma constatação simples. Nem tudo o que importa precisa acontecer diariamente. Uma atividade física pode ser realizada em determinados dias, um encontro com amigos pode ocupar uma tarde do fim de semana e um projeto pessoal pode avançar em pequenos períodos distribuídos ao longo da semana. O objetivo não é multiplicar compromissos, mas perceber que a organização da vida pode ser mais flexível do que imaginamos.

Entretanto, existe uma diferença importante entre identificar horas disponíveis e ter liberdade para utilizá-las. As 168 horas são iguais no calendário, mas não nas condições concretas de vida. Uma pessoa que trabalha em dois empregos, enfrenta longos deslocamentos ou cuida de um familiar dependente possui possibilidades muito diferentes daquelas de alguém com horários flexíveis e uma rede de apoio.

Essa desigualdade aparece nas pesquisas sobre uso do tempo. Segundo a American Time Use Survey, levantamento oficial realizado nos Estados Unidos com dados de 2025, mulheres que vivem em domicílios com crianças menores de seis anos dedicam, em média, 2,8 horas diárias ao cuidado infantil direto, enquanto os homens dedicam 1,7 hora. A pesquisa também identificou uma média de 5,1 horas diárias de cuidado secundário entre adultos que vivem com crianças menores de 13 anos. Isso significa permanecer responsável por elas enquanto outras atividades são realizadas.

Esses números ajudam a compreender por que estar em casa não significa necessariamente estar descansando. Preparar refeições, organizar consultas, acompanhar tarefas escolares, administrar medicamentos e antecipar necessidades familiares exigem atenção constante. Muitas dessas atividades não aparecem em calendários profissionais, embora ocupem uma parcela considerável da rotina.

A relação entre trabalho e saúde também merece atenção. Uma análise conjunta da Organização Mundial da Saúde e da Organização Internacional do Trabalho identificou maior risco de acidente vascular cerebral e doença cardíaca isquêmica entre pessoas que trabalham 55 horas ou mais por semana, quando comparadas àquelas com jornadas de 35 a 40 horas. Os resultados reforçam que a sobrecarga prolongada ultrapassa a questão do cansaço e pode representar um problema importante de saúde pública.

Diante disso, encontrar tempo não pode significar simplesmente aprender a suportar mais tarefas. É necessário reconhecer limites, distribuir responsabilidades e compreender que o descanso não deveria depender da conclusão de todas as pendências. Afinal, algumas obrigações nunca terminam.

Vanderkam também chama atenção para a importância de reservar espaço para experiências que proporcionam satisfação e envolvimento pessoal. São momentos que podemos reconhecer como nossas horas de ouro: aprender uma habilidade, praticar uma atividade artística, cultivar amizades, caminhar ao ar livre ou dedicar atenção a algo que desperte interesse genuíno.

Nem sempre essas experiências são as mais fáceis. Aprender um instrumento musical, por exemplo, exige concentração e persistência. Ainda assim, pode proporcionar uma satisfação diferente daquela encontrada nas atividades passivas. Isso não significa que assistir televisão ou permanecer no sofá seja inadequado. O descanso sem objetivos também tem valor. A questão está em perceber se nossas escolhas realmente correspondem ao que desejamos ou se apenas repetimos hábitos por falta de energia para fazer algo diferente.

A passagem dos anos acrescenta outra dimensão a essa reflexão. As prioridades mudam, assim como a disposição física, as relações familiares e as oportunidades. Há períodos em que o trabalho ocupa o centro da vida; em outros, o cuidado com filhos, pais idosos ou a própria saúde exige maior atenção. O equilíbrio, portanto, dificilmente será uma divisão perfeita de horas entre atividades. Ele depende das circunstâncias e precisa ser constantemente revisto.

Também é importante reconhecer que o tempo dedicado às relações humanas não pode ser medido exclusivamente pela duração. Uma conversa durante o jantar, uma visita a alguém querido ou uma caminhada compartilhada podem fortalecer vínculos quando existe disponibilidade para estar presente. Esses encontros não substituem a necessidade de convivência contínua, mas mostram que a qualidade da atenção também importa.

Talvez uma das mudanças mais significativas seja abandonar a expectativa de que a vida precisa estar inteiramente organizada para que possamos desfrutá-la. Sempre haverá contas, trabalho, compromissos e situações inesperadas. Esperar que tudo esteja resolvido pode significar adiar indefinidamente experiências importantes.

Observar como utilizamos nossas 168 horas semanais pode revelar prioridades, limitações e possibilidades. Algumas mudanças dependerão de escolhas pessoais; outras exigirão apoio familiar, melhores condições de trabalho e uma distribuição mais justa das responsabilidades. Reconhecer essa diferença é fundamental para que a reflexão sobre o tempo não se transforme em mais uma fonte de culpa.

Encontrar o tempo que temos não significa descobrir horas escondidas na agenda. Significa reconhecer que a vida acontece enquanto trabalhamos, cuidamos, resolvemos problemas e esperamos que as coisas se acalmem. Nem sempre podemos escolher nossas obrigações, mas compreender como ocupamos nosso tempo pode ser o primeiro passo para preservar aquilo que não queremos continuar adiando.


  1. VANDERKAM, Laura. 168 hours: you have more time than you think. New York: Portfolio, 2010. Disponível em: https://www.penguinrandomhouse.com/books/306369/168-hours-by-laura-vanderkam/9781101432945/. Acesso em: 3 nov. 2026.
  2. UNITED STATES. Bureau of Labor Statistics. American Time Use Survey: 2025 results. Washington, DC: U.S. Department of Labor, 25 jun. 2026. Disponível em: https://www.bls.gov/news.release/archives/atus_06252026.htm. Acesso em: 3 nov. 2026.
  3. WORLD HEALTH ORGANIZATION; INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. Long working hours increasing deaths from heart disease and stroke: WHO, ILO. Geneva: WHO, 17 maio 2021. Disponível em: https://www.who.int/news/item/17-05-2021-long-working-hours-increasing-deaths-from-heart-disease-and-stroke-who-ilo. Acesso em: 3 nov. 2026
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