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A democracia também se defende nos corredores – por Floriano Pesaro

Quando se fala em democracia e autoritarismo, é comum imaginar grandes líderes, discursos inflamados e disputas eleitorais. No entanto, a história demonstra que o destino das instituições raramente é definido apenas por aqueles que ocupam os cargos mais altos. Muitas vezes, ele é decidido silenciosamente nos corredores dos governos, dos tribunais, das organizações e das burocracias.

Ao longo da minha trajetória profissional, pude observar que as instituições são feitas de pessoas. Leis, normas e estruturas são fundamentais, mas sua efetividade depende da conduta daqueles que as executam diariamente. É nesse espaço, distante dos holofotes, que se encontram os maiores riscos e também as maiores virtudes da vida pública.

Existe uma tendência de imaginar que processos de degradação institucional sejam conduzidos apenas por fanáticos ou por indivíduos movidos por convicções extremas. A realidade costuma ser mais complexa. Em muitos casos, os maiores danos são produzidos por pessoas comuns que, diante de oportunidades de ascensão pessoal, escolhem abrir mão de princípios em troca de vantagens imediatas.

O problema não nasce necessariamente da maldade. Frequentemente surge da acomodação, da ambição sem limites ou da crença de que determinados comportamentos são justificáveis quando trazem benefícios profissionais. Pequenas concessões éticas, feitas sucessivamente, acabam criando uma cultura organizacional onde a lealdade pessoal vale mais do que a competência e onde a conveniência supera o compromisso com o interesse público.

Em ambientes saudáveis, o mérito, a qualificação e a capacidade de entrega são os principais critérios para o reconhecimento profissional. Já em ambientes deteriorados, surgem atalhos. A promoção deixa de ser consequência do desempenho e passa a ser resultado da disposição em agradar, obedecer ou silenciar.

Essa lógica não é exclusiva da política. Ela pode ser observada em empresas, organizações sociais e instituições públicas. Sempre que a lealdade cega substitui a capacidade técnica, a qualidade das decisões diminui. Quando o questionamento é desencorajado, os erros se multiplicam. E quando os incentivos premiam a submissão em vez da excelência, os melhores profissionais tendem a se afastar.

Por outro lado, também aprendi que as instituições possuem extraordinária capacidade de resistência. Em momentos de tensão, são justamente os servidores, gestores, técnicos e lideranças intermediárias que podem impedir retrocessos. São eles que preservam procedimentos, defendem regras, exigem transparência e mantêm viva a cultura institucional construída ao longo de décadas.

A democracia não depende apenas de eleições livres. Ela depende igualmente de uma burocracia profissional, de órgãos independentes e de pessoas comprometidas com valores republicanos. O funcionamento saudável do Estado exige indivíduos dispostos a cumprir seu dever mesmo quando isso não representa o caminho mais fácil ou mais vantajoso.

A verdadeira fortaleza de uma sociedade democrática não está apenas em suas constituições ou em seus edifícios públicos. Ela reside na integridade cotidiana de milhares de homens e mulheres que compreendem que servir a uma instituição é diferente de servir a um governante, a um partido ou a um projeto pessoal.

Preservar essa cultura é uma tarefa permanente. Afinal, a erosão institucional raramente acontece de forma abrupta. Ela costuma avançar lentamente, por meio de pequenas concessões que parecem irrelevantes quando analisadas isoladamente. Da mesma forma, a defesa da democracia também ocorre todos os dias, por meio de escolhas individuais que, somadas, sustentam a confiança da sociedade em suas instituições.

A história mostra que os regimes passam, os governos mudam e as lideranças se alternam. As instituições, porém, permanecem. E sua permanência depende da coragem daqueles que, mesmo longe dos holofotes, escolhem diariamente a ética, o profissionalismo e o compromisso com o bem público.

Floriano Pesaro é sociólogo formado pela Universidade de São Paulo (USP) e MBA em Gestão de Negócios, Comércio e Operações Internacionais pela FIA. Atualmente, é Diretor de Gestão Corporativa (COO) da ApexBrasil, presidente do Comitê ESG da Agência, diretor vice-presidente da Fundação João Mangabeira, conselheiro da ABDI e do Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), além de senior fellow do Instituto de Relações Governamentais do Brasil.

Atuou na Casa Civil da Presidência da República e no Ministério da Educação, onde participou da criação do FIES e liderou a implementação nacional do Bolsa Escola. Foi secretário municipal e estadual de Assistência e Desenvolvimento Social em São Paulo, vereador por dois mandatos, deputado federal e coordenador executivo da Transição Governamental Federal de 2022–2023.

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