O Brasil chegará a 2027 com uma herança econômica e administrativa preocupante. Depois de aproximadamente 17 anos e cinco meses de governos petistas, intercalados por seis anos e sete meses de Michel Temer e Jair Bolsonaro, o país continua sustentando empresas pouco competitivas, distribuindo benefícios sem avaliação suficiente de resultados e acumulando deficiências nos serviços públicos. É o roto apoiando o rasgado. A máquina estatal cresce, a dívida aumenta e os investimentos não acompanham as necessidades nacionais. O problema não está apenas na escassez de recursos, mas na incapacidade de transformá-los em resultados.
A dimensão das renúncias fiscais ilustra essa contradição. Para 2026, a estimativa apresentada no projeto de diretrizes orçamentárias alcançava R$ 620,8 bilhões em benefícios tributários e previdenciários, equivalentes a 4,53% do PIB. São recursos que deixam de ingressar nos cofres públicos em troca de benefícios econômicos e sociais nem sempre suficientemente demonstrados. Enquanto isso, os governos ampliam programas de transferência de renda, financiamento educacional, renegociação de dívidas e isenções tributárias. Bolsa Família, Fies, Pé-de-Meia, Desenrola e ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda possuem objetivos distintos e efeitos sociais relevantes, mas não substituem investimentos em produtividade, formação profissional e crescimento sustentado da renda. O Estado distribui benefícios, mas não consegue assegurar, na mesma proporção, as condições estruturais para reduzir a dependência de sua intervenção.
A deterioração fiscal é mensurável. A dívida bruta do governo geral passou de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 82,9% em agosto de 2026, um crescimento de 11,2 pontos percentuais. Os juros nominais apropriados pelo setor público consolidado alcançaram R$ 1,182 trilhão em doze meses, equivalentes a 8,86% do PIB. O endividamento, os déficits, as taxas de juros e a insuficiência de uma trajetória fiscal convincente formam um círculo de restrições ao investimento e ao crescimento. Os juros não decorrem exclusivamente da política fiscal, mas a ausência de disciplina nas contas públicas agrava as dificuldades de financiamento e reduz a possibilidade de queda sustentada de seu custo. O país arrecada muito, compromete parcela expressiva de seus recursos com despesas obrigatórias e encargos financeiros e preserva reduzida liberdade para investir.
A situação das estatais acrescenta outra dimensão ao problema. As empresas federais abrangidas pelas estatísticas fiscais do Banco Central acumularam déficit primário de aproximadamente R$ 6,5 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, o maior resultado negativo para esse intervalo na série iniciada em 2002. Déficit primário não equivale necessariamente a prejuízo contábil, mas exige avaliação da eficiência operacional, dos investimentos e da sustentabilidade financeira. A Lei nº 13.303, de 2016, estabeleceu requisitos técnicos e restrições a determinadas indicações políticas para cargos de direção e conselhos. Apesar disso, persistem disputas partidárias por posições administrativas e tentativas de flexibilizar os critérios de nomeação. O problema não é a orientação legítima das políticas públicas pelo governo controlador, mas o risco de substituir competência por conveniência política.
A expansão da estrutura ministerial também merece exame. O terceiro governo Lula começou com 37 ministérios e ampliou a estrutura para 38, contra 23 ao final do governo Bolsonaro. São 15 pastas adicionais, uma estrutura numericamente cerca de 65% maior. A quantidade de ministérios não mede, isoladamente, a eficiência administrativa, mas exige demonstração de que a ampliação melhora a coordenação e a entrega de serviços, em vez de apenas aumentar os espaços de acomodação política.
Na infraestrutura, o retrato é ainda mais contundente. Levantamento do Tribunal de Contas da União identificou, em abril de 2025, 11.469 obras paralisadas entre 22.621 empreendimentos mapeados, equivalentes a 50,7% do total. Educação e saúde concentravam 8.053 obras interrompidas, aproximadamente 70% das paralisações, enquanto R$ 15,9 bilhões já haviam sido aplicados nos empreendimentos parados. O problema não se restringe a contratos antigos: cerca de 1.200 das 5.505 obras iniciadas entre abril de 2024 e abril de 2025 já estavam paralisadas, ou aproximadamente 22%. São escolas, creches, unidades de saúde e outras estruturas que consomem recursos sem oferecer os serviços prometidos. Os sucessivos programas de aceleração do crescimento anunciam investimentos, mas a capacidade de concluir empreendimentos permanece insuficiente. O levantamento inclui obras com recursos federais executadas por diferentes entes, não sendo todas de responsabilidade direta da União.
Na educação, o IBGE registrou, em 2025, aproximadamente 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais que não sabiam ler e escrever, cerca de 4,9% dessa população. O número representa o analfabetismo absoluto e não inclui o contingente mais amplo de pessoas com dificuldades funcionais de leitura, interpretação e matemática. Embora o acesso à educação tenha aumentado, a qualidade da aprendizagem continua insuficiente para as exigências de uma economia tecnologicamente competitiva. A deficiência educacional compromete a produtividade, a renda e a capacidade de desenvolvimento nacional.
Na saúde, as filas revelam a distância entre os direitos assegurados e os serviços efetivamente prestados. Auditoria do TCU identificou, no Distrito Federal, esperas médias de 97 dias para consultas cardiológicas, 158 dias para endocrinologia, 307 dias para eletrocardiogramas e 271 dias para exames Holter, com base em dados de 2024. São indicadores locais, não médias nacionais, mas demonstram a gravidade dos atrasos. Outra auditoria, divulgada em junho de 2026, apontou que o componente ambulatorial do programa federal Agora Tem Especialistas executou, em 2025, apenas 6,9% do volume planejado por estados e municípios. A demora no diagnóstico agrava doenças, eleva custos e compromete a qualidade de vida dos pacientes.
Na Previdência Social, o INSS registrava, em junho de 2026, aproximadamente 1,8 milhão de requerimentos pendentes, dos quais 555 mil aguardavam havia mais de 45 dias e 451 mil dependiam de providências dos próprios segurados. Apesar da redução da fila em relação aos meses anteriores, o volume demonstra a dificuldade de compatibilizar demanda e capacidade administrativa. Para quem depende de aposentadoria ou benefício assistencial, a espera representa insegurança financeira e postergação do exercício de direitos. O mesmo problema aparece em procedimentos tributários e administrativos, nos quais o cidadão enfrenta exigências e prazos que nem sempre encontram correspondência na eficiência do Estado.
O quadro é revelador. O governo mantém R$ 620,8 bilhões em benefícios fiscais e previdenciários estimados, juros anuais superiores a R$ 1 trilhão, mais de 11 mil obras paralisadas no levantamento do TCU e uma fila previdenciária de 1,8 milhão de requerimentos. São indicadores de naturezas distintas, mas que, examinados em conjunto, expõem a distância entre a dimensão financeira da atuação estatal e sua capacidade de produzir resultados. O PT, pelo tempo de permanência no poder e pela centralidade atribuída à intervenção governamental, tem responsabilidade expressiva pela situação atual, embora os problemas sejam também resultado de decisões acumuladas por diferentes administrações.
A herança de 2027 não será apenas financeira, mas também administrativa e institucional. O próximo presidente encontrará dívida elevada, juros de grande dimensão, despesas rígidas, investimentos insuficientes, obras interrompidas, serviços públicos deficientes e empresas estatais sujeitas a pressões políticas. A solução exigirá disciplina fiscal, revisão dos benefícios sem retorno demonstrado, profissionalização da administração e capacidade de transformar arrecadação em investimentos e serviços efetivos. O PT tem se mostrado mais habilidoso na administração política da problemática do que na construção de uma solucionática capaz de alterar estruturalmente a realidade brasileira.
Se Lula vencer, terá de enfrentar a maldição que seu próprio governo ajudou a construir. Se Flávio Bolsonaro assumir, comerá o pão que o PT amassou.












