Home / Política / O novo mapa político de São Paulo – por Walter Ciglioni

O novo mapa político de São Paulo – por Walter Ciglioni

O que as urnas de 2026 dizem sobre o futuro do maior colégio eleitoral do Brasil

As eleições de 2026 produziram em São Paulo uma fotografia política que merece ser observada para além da relação entre vencedores e derrotados. Os números divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo indicam uma mudança consistente na distribuição do poder no maior colégio eleitoral brasileiro. A direita e a centro-direita consolidaram vantagem nas principais disputas majoritárias, enquanto a esquerda demonstrou capacidade de mobilização e preservou representação expressiva nas eleições proporcionais. Paralelamente, o centro tradicional, que durante décadas organizou boa parte da política paulista, perdeu protagonismo e passou a ocupar uma posição diferente dentro do sistema partidário.

São Paulo chegou às eleições com 34.104.226 eleitores aptos, cerca de 21,5% do eleitorado brasileiro. É uma dimensão que obriga a olhar para o resultado paulista também sob perspectiva nacional. O Estado elege 70 dos 513 integrantes da Câmara dos Deputados, 94 deputados estaduais e três senadores, além de administrar o maior orçamento estadual do país. Politicamente, portanto, aquilo que acontece em São Paulo dificilmente permanece restrito às suas fronteiras.

O resultado mais evidente dessa eleição foi a reeleição de Tarcísio de Freitas, do Republicanos, no primeiro turno, com 62,65% dos votos válidos. Fernando Haddad, do PT, terminou em segundo lugar, com pouco mais de 36%. Uma diferença superior a 26 pontos percentuais não pode ser tratada apenas como vitória circunstancial. Ela precisa ser examinada à luz do processo iniciado quatro anos antes.

Tarcísio de Freitas (Republicanos)

Em 2022, a chegada de Tarcísio ao Palácio dos Bandeirantes poderia ser explicada por uma combinação de fatores: a força de Jair Bolsonaro em São Paulo, o desgaste do PSDB depois de quase três décadas no governo estadual, a polarização nacional e o desejo de alternância. A eleição de 2026 acrescenta uma informação nova. Quatro anos depois, Tarcísio não apenas preservou sua posição como ampliou suficientemente sua base para resolver a eleição no primeiro turno. Isso sugere que o fenômeno deixou de depender exclusivamente das circunstâncias que marcaram 2022.

Há ainda um aspecto decisivo. A candidatura do governador não esteve apoiada apenas por partidos tradicionalmente classificados à direita. Sua coligação reuniu Republicanos, PL, MDB, Democrata, Avante, PSD, além das federações Renovação Solidária e União Progressistas. A composição mostra uma direita que conseguiu ampliar sua área de influência sobre parcelas relevantes do centro político. Durante muitos anos, o centro funcionou como eixo ao redor do qual direita e esquerda procuravam construir alianças em São Paulo. O movimento atual parece diferente: parte significativa desse centro passou a integrar uma coalizão cuja liderança está posicionada mais à direita do antigo sistema paulista.

A eleição para o Senado reforçou essa leitura. As duas vagas em disputa foram conquistadas por Guilherme Derrite, do PP, e André do Prado, do PL.

CDN media
André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP)

Derrite recebeu 13.273.880 votos, 30,59% dos válidos, enquanto André do Prado alcançou 12.703.089, equivalentes a 29,28%. Simone Tebet ficou com 19,23%, e Marina Silva, com 18,12%. O eleitor paulista, portanto, não apenas reelegeu um governador desse campo político como destinou as duas cadeiras do Senado em disputa a candidatos situados na direita e na centro-direita.

A combinação dos resultados é mais importante do que cada número isoladamente. Governador e duas vagas senatoriais foram decididos na mesma direção. E, no caso do Senado, trata-se de uma decisão cujos efeitos se prolongam por oito anos. Os eleitos em 2026 representarão São Paulo até 2035, participando não apenas da elaboração das leis, mas das atribuições constitucionais exclusivas da Casa, entre elas a análise de indicações para importantes instituições da República.

É quando passamos para as eleições proporcionais, entretanto, que o quadro paulista se torna mais complexo. Para deputado federal, o TRE-SP contabilizou 23.674.188 votos válidos na disputa pelas 70 cadeiras destinadas ao Estado. O candidato mais votado foi Lucas Pavanato, do PL, com 3.038.438 votos. A dimensão dessa votação, superior a três milhões, é politicamente relevante e demonstra a capacidade de mobilização alcançada por determinadas candidaturas associadas à direita.

Lucas Pavanato (PL)

Mas o segundo lugar pertenceu a Erika Hilton, do PSOL, com 1.596.472 votos. Sâmia Bomfim, também do PSOL, obteve 583.107. Kim Kataguiri, do Missão, recebeu 520.071, e Tabata Amaral, do PSB, 476.383. Essa sequência ajuda a impedir uma interpretação excessivamente simplificada do resultado.

Erika Hilton (PSOL)
Sâmia Bomfim (PSOL)
Kim Kataguiri (Missão)
Tabata Amaral (PSB)

A predominância da direita nas eleições majoritárias não corresponde ao desaparecimento da esquerda do mapa eleitoral. Ao contrário: candidaturas identificadas com a esquerda continuam capazes de reunir centenas de milhares e, em alguns casos, mais de um milhão de votos.

A eleição para a Assembleia Legislativa oferece quadro semelhante. Foram 23.290.014 votos válidos para preencher 94 cadeiras. Eduarda Campopiano, do PL, liderou a votação estadual com 1.956.238 votos. Em seguida aparece Eduardo Suplicy, do PT, com 654.627. Sofia Favero, do PSOL, recebeu 407.773; Carlos Giannazi, também do PSOL, 367.861; e Paula da Bancada Feminista, do mesmo partido, 326.190.

Eduarda Campopiano (PL)
Eduardo Suplicy (PT)
Sofia Favero (PSOL)
Carlos Giannazi (PSOL)
Bancada Feminista (PSOL)

É um contraste que merece atenção. A candidatura mais votada para a Alesp pertence ao PL e se aproxima dos dois milhões de votos, mas quatro nomes da esquerda aparecem imediatamente entre as maiores votações. O mesmo padrão, com características próprias, aparece na Câmara Federal. São Paulo apresenta uma inclinação bastante clara à direita nas escolhas majoritárias, mas conserva polos eleitorais de esquerda extremamente mobilizados nas eleições proporcionais.

Essa diferença entre voto majoritário e proporcional talvez seja uma das principais chaves para compreender o resultado. A esquerda continua possuindo base social, candidatos conhecidos e capacidade de mobilização. Fernando Haddad recebeu mais de oito milhões de votos para governador. Erika Hilton superou 1,5 milhão para deputada federal. Eduardo Suplicy passou de 650 mil para deputado estadual. Não há base empírica, portanto, para falar em desaparecimento da esquerda paulista. O que existe é uma dificuldade maior desse campo em transformar sua votação em maioria estadual nas disputas pelo Executivo e pelo Senado.

Do outro lado, a direita parece ter avançado justamente nessa capacidade de agregação. Ela não depende apenas de um candidato ou de uma legenda. Existem hoje lideranças com perfis diferentes, estruturas partidárias, parlamentares e bases municipais. Tarcísio possui uma identidade administrativa própria. Derrite consolidou sua presença política principalmente em torno da segurança pública. André do Prado possui longa trajetória no Legislativo paulista.

Na Câmara e na Assembleia aparecem novas lideranças com votações de grande dimensão.

Esse processo também obriga a rever uma interpretação comum dos últimos anos, segundo a qual o crescimento da direita brasileira poderia ser compreendido quase exclusivamente a partir da liderança de Jair Bolsonaro. Bolsonaro continua sendo personagem central desse processo histórico, mas os resultados paulistas sugerem que o campo político surgido ou fortalecido ao seu redor adquiriu ramificações próprias. Uma coisa é um movimento eleitoral depender de uma liderança nacional. Outra é possuir governador, senadores, deputados, prefeitos, vereadores e estruturas partidárias capazes de sobreviver às diferentes conjunturas eleitorais. São fenômenos politicamente distintos.

A mudança fica ainda mais evidente quando o presente é comparado com o passado recente de São Paulo. Durante quase três décadas, a política estadual foi organizada em grande medida ao redor do PSDB. O partido governou São Paulo continuamente entre 1995 e 2022. Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra, Alberto Goldman, João Doria e Rodrigo Garcia representam diferentes momentos desse longo período. Durante anos, a principal disputa não era sobre quem ocuparia o espaço da centro-direita paulista, mas sobre quem conseguiria derrotar eleitoralmente o bloco tucano.

Conheço esse cenário também pela experiência de ter participado diretamente de uma eleição para o Palácio dos Bandeirantes. Em 2014, fui candidato ao Governo do Estado de São Paulo pelo PRTB, número 28. Recebi 22.822 votos. Naquela eleição, Geraldo Alckmin foi reeleito no primeiro turno com 57,31% dos votos válidos. Paulo Skaf, então no PMDB, ficou em segundo lugar, e Alexandre Padilha, do PT, em terceiro. Mais importante do que recordar a votação de cada candidato é perceber como aquele sistema estava organizado: o PSDB comandava o governo, o PT constituía o principal polo oposicionista e o PMDB ocupava importante espaço de centro.

Doze anos depois, o mapa é outro. O governador pertence ao Republicanos. As duas vagas do Senado foram conquistadas por PP e PL. O PL aparece com força significativa nas eleições legislativas. PT e PSOL ocupam parte importante do espaço oposicionista. PSD, MDB, União Brasil, PP, Republicanos, Podemos e outras siglas disputam parcelas do antigo centro. A velha divisão entre PSDB e PT, que durante anos serviu como chave para interpretar São Paulo, já não explica suficientemente o Estado.

Essa talvez seja a transformação mais profunda revelada por 2026. Não houve simplesmente uma transferência de votos da esquerda para a direita. Houve uma reorganização de espaços anteriormente ocupados pelo centro e pela centro-direita tradicional. Uma parcela do eleitorado que durante décadas encontrou representação no PSDB passou a procurar outras legendas e lideranças. O fenômeno ajuda a explicar por que o crescimento da direita contemporânea ocorreu ao mesmo tempo em que o antigo sistema tucano perdeu centralidade.

Há outras variáveis que merecem acompanhamento. A segurança pública ganhou importância crescente no debate paulista, embora seja impossível atribuir milhões de votos a um único tema. Emprego, inflação, infraestrutura, qualidade dos serviços públicos, conservadorismo nos costumes, empreendedorismo, avaliação administrativa e polarização nacional também participam da formação das escolhas. Eleições de um Estado com 34 milhões de eleitores nunca possuem uma única explicação.

A comunicação política também mudou radicalmente. Há pouco mais de uma década, campanhas estaduais dependiam em grau muito maior do horário eleitoral, das estruturas partidárias municipais, do rádio, da televisão e da cobertura da imprensa tradicional. As redes sociais reduziram parte dessa dependência. Um candidato pode construir sua própria audiência, falar diariamente com milhões de pessoas e transformar seguidores em eleitores. Isso vale tanto para a direita quanto para a esquerda. As votações milionárias de candidatos situados em campos ideológicos opostos demonstram que a comunicação digital não é monopólio de nenhum grupo.

Esse processo fortaleceu também a personalização do voto. Em determinados segmentos, a identificação do eleitor com uma personalidade política pode ser mais intensa do que sua relação com o partido ao qual ela pertence. As legendas permanecem essenciais — sobretudo porque as eleições parlamentares seguem o sistema proporcional —, mas já não controlam sozinhas os canais de comunicação entre candidato e eleitor.

É justamente por causa do sistema proporcional que a análise dos deputados exige cautela. Os 70 candidatos individualmente mais votados para a Câmara não são automaticamente os 70 eleitos, assim como os 94 mais votados não formam necessariamente a Assembleia. Os votos recebidos pelos candidatos e pelas legendas participam do cálculo que determina o número de cadeiras conquistadas por cada partido ou federação. Por isso, grandes votações individuais são politicamente reveladoras, mas a verdadeira dimensão institucional precisa ser observada também pela composição das bancadas.

Há, portanto, duas realidades convivendo no mesmo Estado. A primeira é uma direita e uma centro-direita que demonstraram capacidade de construir maioria ampla nas eleições majoritárias e transformar essa maioria em posições institucionais de grande importância. A segunda é uma esquerda que perdeu a disputa majoritária, mas preserva milhões de eleitores e capacidade significativa de representação parlamentar. Entre esses dois campos existe um centro que não desapareceu, mas deixou de exercer a hegemonia política que durante décadas caracterizou São Paulo.

A esquerda terá de examinar por que sua capacidade de produzir grandes votações individuais não se transforma, na mesma proporção, em maioria estadual. Isso passa necessariamente pelo estudo do comportamento eleitoral do interior, das regiões metropolitanas, da classe média, dos trabalhadores autônomos, dos pequenos empreendedores e das periferias. Não basta possuir uma base intensa de apoio; para vencer uma eleição majoritária é necessário construir uma coalizão social e territorial mais ampla.

A direita enfrenta desafio diferente. Deixou de ocupar apenas o espaço da oposição ou da contestação e passou a exercer amplamente o poder. Isso muda a natureza da cobrança. Governar significa responder por segurança, saúde, educação, transporte, infraestrutura, habitação, desenvolvimento econômico, emprego, equilíbrio fiscal e qualidade dos serviços públicos. Quanto maior a vitória, maior tende a ser a expectativa produzida por ela.
Nenhuma maioria eleitoral constitui um cheque em branco. Esse princípio vale para direita, centro ou esquerda. Democracias concedem mandatos com prazo determinado e mecanismos de fiscalização. O eleitor entrega poder e posteriormente avalia a forma como ele foi exercido. Governo, oposição, Parlamento, imprensa e sociedade civil desempenham funções distintas e indispensáveis nesse processo.

Também seria precipitado transformar 2026 em previsão automática para as próximas eleições. O comportamento eleitoral não é permanente. Governos são avaliados, circunstâncias econômicas mudam, novas lideranças aparecem e temas hoje centrais podem perder importância. O resultado atual descreve uma correlação de forças; não determina antecipadamente o futuro.

Mas a fotografia de 2026 é suficientemente clara para permitir uma conclusão: o eixo de gravidade da política paulista encontra-se hoje à direita do centro. Isso não significa que São Paulo tenha se tornado ideologicamente uniforme. Os milhões de votos recebidos pela esquerda demonstram exatamente o contrário. Significa que, neste momento, direita e centro-direita possuem maior capacidade de reunir uma coalizão eleitoral suficientemente ampla para vencer as principais disputas estaduais.

Para quem participou da eleição de 2014, a dimensão da mudança é particularmente evidente. Em apenas doze anos, o sistema que organizava a política paulista durante décadas foi profundamente modificado. O PSDB deixou o Palácio dos Bandeirantes, novas forças ocuparam seu espaço, o PL ganhou protagonismo, o Republicanos chegou ao governo e PT e PSOL passaram a representar parcelas importantes da oposição. O mapa partidário de 2014 parece hoje pertencer a outra época.

Talvez esse seja o verdadeiro recado das urnas. São Paulo não deixou de ser plural. São Paulo mudou a maneira como distribui seu poder.

A direita deixou de ser apenas uma força de contestação e passou a ocupar amplamente o espaço institucional. A esquerda mantém milhões de votos e terá de encontrar caminhos para transformá-los novamente em maioria estadual. O centro terá de decidir se reconstrói uma identidade própria ou permanece integrado às grandes coalizões. E aqueles que receberam o poder das urnas terão de demonstrar capacidade de transformá-lo em resultados.

As eleições entregam mandatos, não certezas permanentes. Entregam poder, mas também responsabilidade.
É pela forma como esse poder será exercido nos próximos quatro anos — e pela capacidade de governo e oposição compreenderem as mudanças ocorridas na sociedade paulista — que saberemos se 2026 representou apenas mais uma etapa da alternância democrática ou a consolidação de um novo ciclo político no maior colégio eleitoral do Brasil.


Walter Ciglioni
Jornalista
Candidato ao Governo do Estado de São Paulo em 2014

Marcado:

Sign Up For Daily Newsletter

Stay updated with our weekly newsletter. Subscribe now to never miss an update!

[mc4wp_form]

Deixe um Comentário