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A resposta inadiável do setor empresarial por uma transformação social na violência de gênero – por Mônica Gregori

No dia 31 de março, o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro foi palco do evento “Responsabilidade empresarial no enfrentamento ao feminicídio, a violência de gênero e pela transformação cultural”. Organizado pela Presidência do Brasil, Petrobrás e Banco do Brasil, o encontro reuniu líderes do setor público e privado para debater e fortalecer o papel das empresas no combate a uma das mais urgentes e complexas questões sociais do país: a violência contra a mulher.

O cenário reflete uma crise estrutural: em 2025, o País registrou 1.518 vítimas de alguma forma de violência contra mulheres. O dado é alarmante e revela a ponta de um iceberg de ameaças, agressões, controle e pressões que antecedem a perda de vidas. Estamos diante de um retrocesso nas relações de gênero e uma ameaça aos espaços conquistados pelas mulheres, à muito custo.

Contrariando a percepção de que a violência de gênero é um problema restrito ao âmbito doméstico, a abertura de um debate junto ao setor empresarial sublinha o fato de que, à medida que mulheres e meninas conquistam empoderamento educacional, econômico e profissional, elas enfrentam um aumento da violência em outros espaços, como escolas e ambientes de trabalho.

O medo alimentado pela ameaça e pelo assédio acaba por limitar a participação em esferas de poder e liderança, perpetuando, dessa forma, um modelo social arcaico. Ciente da gravidade e da natureza estrutural dessa crise, o Governo Federal, o Congresso Nacional e o Poder Judiciário lançaram, em 4 de fevereiro de 2026, o “Pacto Brasil contra o Feminicídio”, iniciativa que visa a uma atuação coordenada e permanente dos três Poderes. A ação foi acompanhada do anúncio da campanha nacional “Todos juntos por todas”, que convoca ativamente a participação dos homens na luta pelo fim do feminicídio.

Mônica Gregori, Diretora de Impacto e Comunicação do Pacto Global da ONU – Rede Brasil (Crédito: Divulgação)

É nesse contexto que o setor empresarial é convocado a desempenhar um papel fundamental, uma vez que a violência de gênero não é apenas um problema do âmbito privado ou da segurança pública. Ela é um tema intrínseco à vida social e, logo, atravessa o mundo do trabalho. Empresas, como espaços de socialização, influência e formação de valores, têm o potencial não só de oferecer proteção e apoio às vítimas, mas também de transformar a cultura misógina que alimenta a violência.

Aqui, iniciativas como o Pacto Global da ONU – Rede Brasil, que convida empresas a assumirem compromissos públicos, operam como articuladoras essenciais, apoiando empresas a alinharem suas estratégias aos Direitos Humanos e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Por meio do “Movimento Elas Lideram 2030”, por exemplo, a rede brasileira do Pacto Global da ONU busca impulsionar a presença de mulheres em cargos de liderança, reconhecendo que promover mulheres à alta liderança é, também, uma estratégia estruturante de transformação cultural.

Neste momento, muitas empresas já implementam ações contra a violência e o assédio, com canais de denúncia e parcerias com organizações da sociedade civil. O “Pacto pela Diversidade, Equidade e Inclusão”, assinado por 35 empresas estatais federais, em 2024, exemplifica esse compromisso. Ações concretas, como a flexibilização de jornada, concessão de benefícios, apoio psicológico e encaminhamento para redes especializadas de atendimento são medidas que fazem diferença real na vida das mulheres e contribuem para sua permanência e segurança no trabalho. A conscientização e a educação são vitais, inclusive no reconhecimento dos riscos psicossociais, como assédio e violência ocupacional, conforme a NR-1.

Crucialmente, a transformação cultural exige o engajamento dos homens em todos os ambientes, inclusive o corporativo. Falar sobre masculinidades, corresponsabilização e prevenção da violência não é secundário. Homens precisam ser parte ativa da transformação cultural. Sem a participação consciente e contínua dos homens, a desigualdade de gênero e a violência não serão superadas.

Enfrentar o feminicídio e a violência de gênero é um desafio que exige coragem, compromisso e ação permanente. O setor empresarial, com seus recursos, alcance e poder de influência, possui a capacidade de assumir um papel ativo na construção de uma sociedade mais justa, segura e igualitária. A transformação é possível, e ela só começa quando cada organização reconhece sua responsabilidade e decide agir.

*Mônica Gregori é Diretora de Impacto e Comunicação do Pacto Global da ONU – Rede Brasil


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