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Augúrios para 2027: a encruzilhada fiscal – por Foch Simão

O Brasil não esconde uma “dívida oculta” nos moldes dos escândalos financeiros que abalaram países africanos ou asiáticos. Seu mercado é sofisticado, e os mecanismos de divulgação da dívida pública são regulares. No entanto, a transparência dos números oficiais não elimina a existência de passivos contingentes, precatórios represados e subsídios creditícios que raramente ocupam o centro do debate.

Nos últimos anos, governos sucessivos postergaram despesas e criaram artifícios para aliviar temporariamente o Orçamento. O resultado é uma aparente estabilidade que encobre desafios estruturais: a dívida bruta mantém-se elevada, os juros reais estão entre os mais altos do mundo, e a margem para novos gastos sem abalar a confiança dos mercados encolhe.

Quem assumir o Planalto em 2027 herdará um tabuleiro delicado, com a dívida próxima ou acima de 90% do PIB. Diante disso, as opções são duras; de um lado, a trilha heterodoxa (alongamento da dívida, controle de juros, tributação emergencial), que historicamente gera fuga de capitais e inflação; de outro, a receita ortodoxa (reformas, privatizações, contenção de gastos), que exige desgaste político imediato por benefícios incertos no longo prazo.

Porém, a escolha entre essas trilhas não será decidida exclusivamente pela caneta do presidente. No presidencialismo de coalizão brasileiro, o caráter e a composição do novo Congresso Nacional eleito em 2026 serão o fator crítico, talvez o mais determinante. Sem maioria qualificada para aprovar emendas constitucionais, qualquer ajuste ortodoxo que mexa em regras fiscais fica inviabilizado; sem coesão partidária, até medidas heterodoxas podem ser rejeitadas ou descaracterizadas no legislativo.

O problema se agrava porque parcela significativa do eleitorado que renovou as cadeiras ignora os trâmites políticos, desconhece o rito das PECs, a urgência constitucional, a dinâmica das emendas parlamentares ou o peso das votações simbólicas. Esse déficit de compreensão institucional produz um Congresso que frequentemente reflete demandas imediatistas e contraditórias. A população quer menos impostos e mais serviços públicos, mas elege representantes que, pressionados por essa mesma demanda, frequentemente adotam medidas que comprometem o equilíbrio das contas públicas.

O resultado é um cenário em que o próximo chefe do Executivo, mesmo que tenha vontade férrea de implementar reformas sociais, econômicas ou fiscais, poderá ver sua agenda naufragar na Câmara e no Senado, tornando-se refém de um Legislativo que atua muito mais como termômetro do descontentamento popular do que como arquiteto de soluções estruturais. É nesse contexto que ganha relevância a composição do Congresso Nacional eleito no primeiro turno e sua relação com a escolha presidencial no segundo. A governabilidade depende não apenas da vontade política do chefe do Executivo, mas também da capacidade de construir uma base parlamentar comprometida com reformas, responsabilidade fiscal e políticas públicas sustentáveis. A harmonia entre os Poderes não significa submissão do Legislativo ao Executivo, mas capacidade de diálogo, negociação e convergência em torno de objetivos nacionais.

Para investidores, esse horizonte recomenda cautela redobrada, onde a incerteza não vem apenas da política econômica em si, mas da governabilidade, isto é, da imprevisibilidade da coalizão que sustentará (ou inviabilizará) o governo. Protegese melhor quem diversifica internacionalmente e busca ativos indexados à inflação ou vinculados a setores essenciais (agronegócio e energia), que sofrem menos com paralisias legislativas.

O que está em jogo vai além de planilhas. O Brasil adiou por décadas o reequilíbrio de suas contas; a fatura aproxima-se do vencimento. Nenhum governo, sozinho, poderá escapar dela, dependerá da engenharia política de um Congresso eleito por uma maioria que, ironicamente, não compreende integralmente as regras do jogo que seus próprios representantes operam.

Como em toda grande encruzilhada, o futuro não será decidido por números, mas pela habilidade do Executivo em costurar acordos em um parlamento que espelha a confusão e a impaciência do eleitorado. As nações raramente sucumbem por falta de recursos; sucumbem pela incapacidade de alinhar a vontade popular, a racionalidade técnica e a governabilidade institucional quando a realidade finalmente bate à porta.

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