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DESCARTAR. SIMPLESMENTE DESCARTAR. Por Elizabeth Leão

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Neste mundo de visibilidade exacerbada, onde cada movimento resulta em divulgação nas redes sociais, algumas notícias causam estupor pela total discrepância do que se entende por conduta humana normal, nos parâmetros existentes numa sociedade sadia.
Independentemente do fato acontecer no nosso país ou além. No último dia 06 de março, uma família britânica surpreendeu os internautas com uma notícia no mínimo inesperada e chocante ao informar, o pai, que decidiram colocar o bebê de três meses para adoção porque a filha “não combinava com a família”. Não conseguiram inserir a dinâmica do bebê à rotina do casal.
Daí, o mais conveniente seria “descartar” a criança colocando-a para adoção. O relato foi publicado na semana passada, no fórum Reddit e divulgado pelo jornal britânico The Mirror.
Em outra notícia, os pais resolvem entregar para adoção uma criança autista, de oito anos.
A mãe declara que “ela não é ninguém para mim”. Afirma, inclusive, que a criança tem, propositadamente, surtos de ataques de pânico, se eles se ausentam ou se programam para
alguma festa. “Quer sua vida de volta”!
Qual a atitude lhes pareceu mais adequada? “Descartar” a pequena que lhes causa incômodo.
O que está acontecendo com esta geração, que se fechou num egoísmo insano e apenas consegue aceitar a vida como a idealizou? Não se permite submeter a qualquer intempérie, a qualquer fator que porventura afete seus planos de perfeição, de uma pseudo felicidade e sucesso.

Para esta geração, o padrão de felicidade e sucesso encontra-se retratado no corpo escultural, no carro sonhado, na casa cinematográfica, nas dezenas, centenas ou mesmo milhares de
curtições das postagens que inserem nas mídias sociais, onde tudo é maravilhoso e perfeito! Sorrisos, brindes, alegria, como se a vida real não fosse constantemente bombardeada por desafios, dificuldades, doenças, conflitos.
Ressalto que esses comportamentos distópicos nada têm a ver com as possíveis e legalmente admitidas entregas à doação de crianças não desejadas, desde a concepção, seja pela impossibilidade financeira da genitora, seja por traumas diversos. Em casos tais, a lei protege as crianças e instituições competentes direcionam e apoiam a entrega à adoção.
Estou me referindo àqueles pais que voluntária e deliberadamente programaram uma gestação e depois simplesmente “descartam” a criança, por não se adaptarem à nova rotina com a presença de um ser que incomoda ou porque esse filho requer cuidados em face de eventuais necessidades especiais.
O que podemos esperar do futuro de nossas crianças? Os traumas que advirão de atitudes insanas como as relatadas tendem a se agravar, não apenas nestes dois fatos relatados pelos seus protagonistas, mas em face da imensidão de crianças que não recebem apoio psicológico e afetivo da maioria dos pais que, após as separações, quase em sua totalidade, não se preocupam com o desenvolvimento afetivo-emocional de seus filhos. Quando muito,
pagam as pensões estabelecidas judicialmente. Como se sabe, os pais não recebem qualquer orientação acerca da nova responsabilidade que irão assumir com a chegada de um filho. E o reflexo surge inexoravelmente conturbando a teia social e afetando as gerações futuras.
Teríamos contribuído para que esta geração se tornasse tão insensível e irresponsável? Sinto que nós, os “elders” da atualidade também fomos empurrados por uma avalanche de informações inadequadas e, envoltos na Matrix, muitos não conseguimos transmitir valores básicos para a formação sadia desses jovens.
Todos, submetidos à nevoa da ilusão, contribuímos para o egoísmo e a ausência de amor. Talvez nos esquecendo de Deus, não fortalecemos suficientemente os conceitos de solidariedade, e, principalmente da empatia que se perdeu e não encontra ressonância no coração desses jovens profundamente materialistas.
Temo pelas gerações que estão emergindo, cada vez mais insensíveis e alienadas, bombardeadas pelas ideologias impostas diuturnamente e incapazes de refletir e solucionar os mais simples problemas. Encontram-se submetidas aos apelos das modernidades tecnológicas, que, por sua vez se demonstram ineficientes na promoção e desenvolvimento de soluções conscientes, no que concerne aos desafios das relações interpessoais que não se
encontram relacionadas no manual comportamental que conhecem.
Posso afirmar que houve sim, a exacerbação do egoísmo, com a restrição da capacidade de compreender o mundo.
O verdadeiro sentido do amor foi deturpado e agora é exageradamente focado nos seus interesses pessoais, a despeito do desejo ou necessidade do outro.
Se não bastasse, a limitação do próprio ponto de vista os leva a enxergar como certo, exclusivamente, o que satisfaz o seu próprio benefício.
Se estou com um companheiro(a) e ele(ela) não satisfaz as minhas expectativas, melhor separar e procurar outra pessoa. Se tenho um filho e ele não se adapta a rotina do casal, melhor descartá-lo, colocando-o para adoção. Se tenho um filho e ele nasceu com
necessidades especiais, não “sou obrigado(a)” a cuidar dele, melhor entregá-lo para adoção.

Para onde foi levada a sensibilidade e a compaixão? Como será ossível mudar esta sociedade doente, egoísta e estéril de amor ao próximo, de amor a Deus? Até que ponto o materialismo conseguiu invadir o coração do ser humano e transformá-lo num objeto insensível e insano?
A ausência de valores, de empatia, de amor ao próximo deveria ser objeto de profundas análises. Cabe àqueles que ainda sentem amor à família, aos filhos, transmitir princípios básicos que possam ajudar na contenção de absurdas, egoístas e irrefletidas condutas
que assolam a sociedade nos momentos atuais. Não podemos desistir.
Que situações como estas relatadas acima, possam ser consideradas e ter força suficiente para ajudar na transformação do momento atual em uma realidade verdadeiramente permeada de Bondade, Beleza e Justiça!

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