Encontro-me diante de desafio que me impus, embora relutando aceitar: escrever artigo sobre a Carta Encíclica do Santo Padre Leão XIV, Magnifica Humanitas, em nosso idioma Magnífica Humanidade, “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era de inteligência artificial”, publicada em Roma, “junto de São Pedro, em 15 de maio de 2025, segundo do meu pontificado”, como diz o último parágrafo do histórico documento.
A Magnífica Humanidade é até agora a última de preciosa série de Cartas Encíclicas, integrantes de longa série sobre a Doutrina Social da Igreja, iniciada com a publicação da Rerum Novarum, de Sua Santidade o Papa Leão XIII, de 15/5/1981, Sobre a Condição dos Operários; a Quadragésimo Ano, de Sua Santidade o Papa Pio XI, de 15/5/1931, Sobre a Restauração e Aperfeiçoamento da Ordem Social; a Mater et Magistra, de Sua Santidade o Papa João XXIII, de 15 de maio de 1961; a Populorum Progressio, de Sua Santidade o Papa Paulo VI, de 23/3/1967; a Laborem Exercens, de Sua Santidade o Papa João Paulo II, de 14/9/1981.
Vejo estas Encíclicas como a coluna vertebral do pensamento da Igreja Católica sobre a situação das classes trabalhadoras e responsabilidades do Estado e do empresariado na busca da Justiça Social, com a valiosa contribuição de outros documentos, dos quais o exemplar de que disponho, traduzido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, apresenta minuciosas referências.
Carta Encíclica não se interpreta, tampouco se comenta. Revestida da autoridade que lhe confere o autor, devemos lê-la, entendê-la e respeitá-la. “A Doutrina Social da Igreja remete-nos ao núcleo central da nossa fé: o mistério do Deus vivo, revelado em Jesus Cristo como comunhão de Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, amor em relação, que se doa reciprocamente, e se comunica ao mundo”.
O Capítulo III do Documento que nos oferece Sua Santidade o Papa Leão XIV trata, especificamente, da “grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA”. Se a Encíclica Rerum Novarum cuidou da “condição dos operários”, no alvorecer da Primeira Revolução Industrial, a Magnifica Humanidade examina a situação da humanidade na Era da Inteligência Artificial.
Lembrando a fracassada tentativa de construção da Torre de Babel, “onde a obra comum é guiada por um projeto de domínio que acaba por desumanizar (cf. Gn 11,1-9)”, e a reconstrução das ruínas de Jerusalém, sob a liderança de Neemias, levada a efeito por partes, como obra de responsabilidade coletiva (cf. Ne 2-6), Sua Santidade nos indaga “sobre o grande estaleiro de obras de nossa época, o que estamos construindo. Enquanto o desenvolvimento tecnológico altera rapidamente linguagens, relações, instituições e formas de poder, nós, cristãos, podemos e devemos escolher em que projeto trabalhar, e com que estilo, para salvaguardar e valorizar a magnífica humanidade que recebemos como dom. Não se trata de uma escolha sobre o nosso futuro, mas sobre o presente, porque a inteligência artificial e as outras tecnologias emergentes já fazem parte do nosso cotidiano”.
Mergulhados na misteriosa Era da Inteligência Artificial, sem sabermos para onde nos levará, devemos nos acautelar sobretudo contra o aumento do desemprego. “…o trabalho não é um mero instrumento, mas expressa e enriquece a dignidade da nossa vida. É uma exigência inscrita na condição humana, um ordinário caminho para a maturidade, o desenvolvimento e a realização pessoal. Nessa perspectiva, por vezes, e em situação de emergência, são necessários auxílios para os pobres, embora esses auxílios não se possam tornar a única resposta, pois o objetivo é dar a cada um condições para viver dignamente através do próprio trabalho”.
A Encíclica nos adverte sobre as relações com a vida alertando que “A corrupção moral dos nossos limites – o mal que, de forma evidente agita o coração do homem – destrói a sociedade e a vida, chegando a extremos de desumanidade”.
No Brasil a corrupção atinge limites jamais conhecidos. Embora não seja recente, o fenômeno ganhou proporções nunca antes registradas, alimentado, como corre na boca do povo, pela convicção da impunidade. São bons exemplos o escândalo do INSS, o comércio de sentenças, o dinheiro do povo pagando emendas parlamentares, o Banco Master, Daniel Vorcaro.
Será assim em toda a América Latina? Sinto-me incapaz de dizer. Democracias resultantes de sistemas eleitorais falsos de maneira geral são artificiais, corruptas e frágeis. Estamos às vésperas de eleições gerais. Seria interessante distribuir exemplares da Magnifica Humanidade entre candidatos que dizem professar a religião católica e irão ao Santuário de Aparecida para rogar ajuda e proteção.
Interroguemo-nos, afinal, sobre o mundo que estamos construindo, para tentar entender o que significa salvaguardar a pessoa humana na era da inteligência artificial. Esse, ao meu modo de ver, as perguntas que devemos nos fazer.
Pensem e respondam.
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Advogado. Foi Ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho.











